ESPECIAL DE FIM DE SEMANA. Roberto Freire analisa o cenário nacional e nordestino desde 2003. O pernambucano , agora eleito por São Paulo, comentou ainda como “bobagem” o episódio da ministra Iriny Lopes que vetou publicidade da modelo Gisele Bündchen<BR>
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(Brasília-DF, 30/09/2011) Em uma entrevista exclusiva para a reportagem da Agência Política Real concedida na tarde de ontem, 29, no Salão Verde da Câmara, o pernambucano Roberto Freire, presidente do Diretório Nacional do Partido Popular Socialista (PPS), eleito deputado federal por São Paulo na última eleição de 2010, traçou uma análise crítica e feroz do cenário nacional e nordestino nos últimos oito anos.
Segundo ele, que foi o líder na Câmara do governo Itamar Franco de 1992 a 1994 e, posteriormente, senador da República pelo seu Estado natal, a “irresponsabilidade vista no governo Lula” será agora cobrada na gestão da presidenta Dilma Rousseff. Freire assinalou várias vezes, durante a entrevista, que “não há” política de desenvolvimento e nem de investimentos do governo federal no Nordeste.
Para o deputado, que teve que sair da região Nordeste e tentar se eleger fora da região, o Nordeste “sofreu de uma falsa esquerdetização” que aporta na base de sustentação dos governos Lula e Dilma, “os neosocialistas como (Fernando) Collor (de Melo), Renan (Calheiros)”, dentre outros como ilustrou na entrevista abaixo.
Política Real (PR): Como o Sr. analisa a gestão de Dilma nestes primeiros meses de governo?
Roberto Freire (RF):Olha, um governo que está enfrentado grandes dificuldades. Primeiro por uma herança que vem de uma má condução de política e econômica, de irresponsabilidades cometidas e que em função de um processo internacional e uma crise que se abate sobre o Brasil e não como forma de marolinha, evidentemente que traz para o governo graves problemas de política econômica. E isso tem um agravante ainda. É um governo que não tem demonstrado grande capacitação em enfrentar essa crise, os desafios e está batendo muito a cabeça. Está adotando medidas sem maior fundamentação e de imediato tendo que desfazer como foi com relação ao Brasil Maior, alguns incentivos que queria dar e que no fundo era mais gravoso do que existia. Os próprios setores econômicos que seriam beneficiados viram que seriam prejudicados, mudou. Agora esse aumento do IPI (Imposto sobre Produtos Importados), isso é um protecionismo que é do século passado e evidentemente nada diz para a economia hoje muito mais globalizada e a economia do futuro. Então, erros concretos, erros de política cambial, erros que são aí e que estão se acumulando e com base nessa herança maldita de Lula, há riscos graves da volta da inflação e em cima de uma família brasileira profundamente endividada com o aumento claro da inadimplência. Então, tudo conspirando, quem sabe, espero que não, mas uma bolha desse endividamento irresponsável que foi feito.
PR: Uma bolha, mais ou menos, como a dos Estados Unidos?
RF: Não, porque os Estados Unidos … Sim, bolha de consumo, claro. Só que nos Estados Unidos foi o subprime em cima de hipotecas, imóveis. Aqui no Brasil, não sei se pegará primeiro os pensionistas e aposentados com terceira geração de empréstimos consignados, sem ter aumento real por veto a presidente Dilma. Então, são vários os problemas que se entrelaçam e que trazem preocupações. Essa aí a primeira avaliação. Em segundo, também uma outra herança, esta no campo da ética, da moral, que é um governo eivado de corrupção. Um governo que em menos de um ano, quatro ministros foram demitidos porque foram denunciados por corrupção. Eu diria que é um governo que envelheceu em menos de um ano.
PR: A oposição está diminuta sobretudo aqui na Câmara e tem um movimento crescente na sociedade contra os atos de corrupção dentro do governo. A partir daí qual seria a estratégia dos partidos de oposição de fazer por exemplo o que o PT fazia na década de 90, quando também era diminuto, e praticamente sozinho mobilizava a sociedade para as suas pautas?
RF: Não cabe comparar as duas coisas. Até porque, o PT quando na oposição, contou com algumas entidades da sociedade civil, que naquelas oportunidades tinham uma certa independência.
PR: E hoje estão cooptadas?
RF: Hoje completamente cooptadas são correias de transmissão do interesse do governo. Chapa branca completa. Mas afora isso, há um aspecto importante que deve ser salientado. A oposição hoje, ela tem uma incapacidade, inclusive, de construir uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito). Não tem nem número para uma CPI. Quer dizer, a derrota foi acachapante e ainda vem piorando com o adesismo que é uma regra da política brasileira com a criação, inclusive, deste partido PSD que é uma plataforma de adesão ao governo. E isso pode enfraquecer mais a oposição. Mas a oposição está tendo e essa é uma avaliação que faço, está tendo até uma postura muito boa, muito combativa. Basta analisar, por exemplo, nenhuma das denúncias da imprensa, da Polícia Federal, do Ministério Público sobre corrupção ficou sem receber da oposição uma consequência e uma ação convidando, convocando, entrando com representação no Ministério Público, junto a Polícia Federal. Ou seja, a oposição se mobilizou dentro do possível. A tentativa de criação da CPI é algo que ainda está em aberto e que está ajudando, em algum momento, a mobilização da sociedade. Pequena, é verdade, ainda não muito grande, mas já uma mobilização contra a corrupção no País, que evidentemente tem uma matriz e essa matriz é o governo federal. Eu diria que não é aqui na Câmara, não é no Parlamento. Um pequeno exemplo. Não permitiram nem a abertura do de investigação em relação ao Valdemar da Costa Neto (PR-SP) no Conselho de Ética aqui. A base do governo, liderado pelo PT. Como a gente podia imaginar que eles iriam fazer isso com o Valdemar da Costa Neto, quando a presidente Dilma exigiu dessa mesma base que blindasse (Antônio) Palocci (ex-ministro da Casa Civil), que blindasse seus ministros e como é, eles blindavam lá e aqui iriam punir seus colegas, seus companheiros, os seus aliados. Evidente que isso tem um centro. E no momento que o governo pede para blindar, aqui vão blindar também àqueles seus. E foi isso que aconteceu. Absolveram a Jaqueline e agora nem vir para o plenário, deixaram mais. Então, é importante dizer que isso têm movimentado um pouco a sociedade em protesto contra essa desmoralização da atividade política e contra a corrupção. Há ainda um certo sentimento que parece que a Dilma tem algo haver com uma ideia ética da política. Coisíssima nenhuma. Ela blindou os seus ministros e os seus ministros só caíram porque era impossível sustentá-los. Mas até a véspera, não vamos esquecer, que ela hipotecava solidariedade e confiança aos ministros. Só que depois não tinha como segurá-los. Até porque as denúncias eram tão graves que eles estavam insustentáveis. Mas a oposição ajudou nisso, a sociedade está cobrando e eu espero que isso aumente até para ver se a gente faz aí algo que proíba ou evite esse processo deslavado de corrupção que assola o País.
PR: O Sr. é do Nordeste, já teve um mandato de senador por Pernambuco e como analisa todo esse processo que acontece na região do governo Lula para cá? O Sr. teve que buscar uma eleição fora da região, é justo afirmar que o Nordeste passou por uma esquerdização?
RF: Esquerdização? É bom que se diga, uma falsa esquerdização. O que houve no Nordeste foi uma repaginação dos velhos coronéis. Alguns até apareceram como neosocialistas. Isso é uma brincadeira. É Collor, é Jader, é Sarney, quais são os prefeitos dos velhos coronéis oligarcas que não estão hoje na barca do Lula e da Dilma. Todos eles. Então, parar com isso. O que infelizmente aconteceu, inclusive no Nordeste, é que nós continuamos o grande bolsão de miséria do País. Um dos absurdos, passaram oito anos aí, são os considerados os homens que mais olharam para o Nordeste e o Nordeste continua com os piores indicadores do Brasil. Que diabos eles fizeram? E aonde a inteligência nordestina, onde a mobilização nordestina. Ficava me lembrando que em 1954, os comunistas juntos com alguns setores da intelectualidade criaram o Congresso da Fome para tentar um projeto de desenvolvimento para o Nordeste. O Nordeste hoje está satisfeito com as migalhas que são lá distribuídas. Porque se olhar para o Sul do País, o Sul cresceu e manteve a mesma distância, mesma diferença, a mesma desigualdade que tinha anteriormente. Ou seja, não mudou nada. Ah! Mas as pessoas acham que melhorou. Melhorou coisíssima nenhuma. Isso que é o grave. Olha o índice de analfabetismo, a expectativa de vida, os piores indicadores de resultados educacionais, o pior nível de saúde, enfim tudo. E as pessoas imaginando que vão mudar o mundo com programas compensatórios e assistencialistas. Não vão. Muda com desenvolvimento, com crescimento econômico, com investimento, coisa que o Brasil não vem fazendo e não vem fazendo – particularmente – no Nordeste.
PR: A presidenta Dilma prometeu na eleição, assim como Lula, plataformas de integração e interação regional, como forma de diminuir as desigualdades entre regiões. Isso tem sido feito?
RF: Primeiro, Lula foi até cínico quando falou da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste). Assumiu, fez uma grande manifestação, inclusive com Celso Furtado, naquela época já com idade bem provecta, fez um grande carnaval e na prática não funcionou nada. Não tem nenhum projeto. Nenhum. E continua não tendo. E isso tem haver com um governo com baixíssimo índice de investimento estatal público orçamentário. O Brasil é há muito tempo e nesse governo Lula e no de Dilma, continua o mesmo, com incapacidade de ter poupança interna para fazer investimento. E os investimentos internacionais, em grande parte, são para as regiões mais desenvolvidas e grande parte disso muito especulativo. Então, nós tivemos nos últimos anos, poucos investimentos. Isso que é um dado fundamental. Basta ver os dados. O desempenho da economia brasileira foi medíocre. Cresceu, porque o mundo inteiro cresceu. E nós crescemos menos do que o restante do mundo. Esse é um dado que a gente precisa levar em consideração. Isso ninguém fala. Nós vamos pagar agora. Agora com a crise batendo que vamos ver o que foi um governo irresponsável, que não aproveitou todas as oportunidades que o crescimento da economia mundial ofereceu, tal como fez a China, como fez a Índia, nós não fizemos.
Nós entramos nessa como facilmente tentaram desenvolvimento na base do consumo, voo de galinha. Isso é perigoso. Em cima de um crédito que foi entregue a laço no meio da rua, a quem quisesse e não algo que fosse substantivo de uma economia em crescimento. Então, são erros que agora vão começar a ser cobrados. Não adianta dizer que temos grandes reservas, até porque com essa fuga de capital que estourou agora foi uma besteirinha e nós já nos desequilibramos na nossa balança. O dólar estourou, a política cambial não se sabe bem para onde vai. É biruta de aeroporto. Empresas sofrendo porquê endividaram se demais em dólar, tendo graves prejuízos. O mercado de trabalho diminuindo. A desindustrialização brasileira. Então, são vários problemas que estão sendo aí colocados. Isso é que é o grande desafio. E eu não sei, se o governo Dilma tem capacidade para enfrentar estes desafios.
PR: O Sr. diria que os governos Lula e Dilma não tem plataforma de desenvolvimento regional?
RF: Não, nenhuma. Nenhuma. Tem alguns projetos que são muito mais propaganda do que algo efetivo. Pouco andou transposição, pouco anda a Transnordestina, pouco anda duplicação. Não temos nenhum grande investimento, investimentos alguns privados. Agora alguém vem me dizer que tem investimento em Suape. Mas sim, gostaria de que estivéssemos no meio de uma economia parada? Estivéssemos andando para trás? O que eu quero dizer é que o nosso desenvolvimento é pequeno, os investimentos são baixos, nós não estamos com uma política correta do ponto de vista industrial. Ao contrário, o Brasil está se desindustrializando.
O Brasil está voltando a pauta de exportações do Brasil Colônia. É de exportar comoditties, exportar matéria-prima e pronto, acabou. E fazendo política de protecionismo porque não há nenhuma competitividade das nossas indústrias. Isso é que é grave. São problemas estruturais. Ah, é a oposição que está dizendo isso agora. Não, estávamos dizendo desde o governo Lula. Só que agora, está mais fácil de dizer, porque objetivamente as pessoas estão começando a perceber todos os erros e equívocos.
PR: E sobre esta tentativa do PT sobre controle de conteúdo, quando a ministra para assuntos de políticas públicas para as mulheres, censura a veiculação da publicidade com a modelo Gisele Bündchen, onde alega que a peça publicitária “não ensina”?
RF: Isso é uma bobagem que não tem tamanho. É uma ministra que teria algo a fazer, porque a questão da mulher exige um ativismo bem maior, as mulheres estão se mobilizando muito justamente para ter presença na sociedade, e ela está se preocupando com bobagens como essa. Ela não faz nada e quando faz, faz besteira. Que besteira está se metendo com isso. O que é que tem isso. Por favor, isso é um negócio tão bobo. Essa ministra deveria cuidar um pouco mais da sua pasta. Até porque é uma pasta que se juntam um número excessivo que pouco faz. É uma outra falha do governo.
PR: A violência contra as mulheres continua crescendo?
RF: Continua. E se preocupar com isso, é uma coisa realmente ridícula até. E ao mesmo tempo, toda uma discussão que é uma discussão perigosa, porque há setores dentro do PT, que quando falam em regular mídia, causa apreensão que isso possa significar censura, controle efetivo da imprensa, até porque tem em alguns setores do PT, não tem compromisso nenhum com a democracia.
(por Humberto Azevedo, especial para Agência Política Real, com edição de Genésio Jr.)