ESPECIAL DE FIM DE SEMANA. Fernando Ferro: “Eleição se ganha no dia e com voto”. Veja a segunda parte da entrevista especial com o líder do PT na Câmara Federal…
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( Recife-PE, 26/03/2010) O especial deste fim de semana da agência Política Real dá continuidade a entrevista do deputado federal Fernando Ferro (PT), que teve sua primeira parte publicada na última sexta-feira. A primeira etapa da entrevista foi voltada para o cenário político nacional e suas metas e objetivos enquanto líder do PT na Câmara Federal. Esta segunda parte está focada nas divergências internas do diretório estadual do PT em Pernambuco e na difícil situação do partido para a escolha do candidato ao senado em Pernambuco.
Às vésperas da eleição de outubro a chapa majoritária do governador Eduardo Campos (PSB) ainda é uma incógnita para os eleitores, uma vez, que as duas tendências mais fortes do partido lutam pela candidatura de atores distintos. Enquanto a Construindo um Novo Brasil (CNB), que preside o diretório, pleiteia a vaga para o secretário das Cidades Humberto Costa; a tendência Campo de Esquerda Unificado (CEU) trabalha para que a vaga seja do ex-prefeito do Recife João Paulo.
No atual momento o partido se encontra visivelmente rachado e na iminência de decidir o nome do candidato por meio de prévias; mesmo que este seja um recurso desaconselhado pelo diretório nacional. Na entrevista o parlamentar Fernando Ferro fala um pouco sobre este dissenso e defende o seu posicionamento perante a questão.
1-Sobre a dissonância do diretório estadual do PT no que se refere à escolha do candidato ao senado que irá compor a chapa de Eduardo qual o seu posicionamento?
F.F: Essa é uma decisão que pertence ao PT no plano estadual e nacional. Temos que ter um diálogo com nossos aliados para compor essa chapa, portanto não é uma decisão só do PT. Precisamos ouvir a opinião pública também e por meio de pesquisas saber quem é o melhor colocado. O resto será uma questão de bom senso. Eu acho que alguns companheiros do PT estão com uma certa euforia eleitoral, tem gente achando que já ganhamos a eleição e vejo isso algo perigoso. Com essa ideia do já ganhei , alguns acham que qualquer um pode ser candidato a senador. Não é assim! Temos que colocar o melhor posicionado para ser candidato. Por isso que defendo o nome do companheiro João Paulo que tem amplas condições, é bem aceito pela população , tem uma boa referência pelas administrações que fez, é um bom articulador político, tem credibilidade política e é um vitorioso; ganhou a maioria das eleições que participou. Agora respeito o Humberto Costa que pleiteia essa disputa e inclusive quer insistir com uma prévia, o próprio diretório nacional já se manifestou reticente a isso e desaconselhando e considerando inadequada uma prévia nesse momento. Sabemos que prévia é um momento de tensão política, elas são feitas quando se é oposição; quando somos governo devemos evitar essa disputa, porque se fizermos uma disputa de prévias fatalmente sairá algumas rusgas, sai .
E no PT não temos experiências boas com prévias, invariavelmente, as previas que realizamos nos prejudicaram – veja o exemplo do RS . Podem insistir nisso para querer marcar posição e dizer que tem o controle partidário; mas é o eleitorado vai pesar… Imagina se alguém ganha uma prévia no PT e o povo lá fora pensa: puniram João Paulo – a leitura que pode sair é essa. Isso pode se transformar num efeito “bumerang”, a população ficar chateada com um outro candidato que está pleiteando este cargo. Quando se fala em maioria do partido, não se coloca em questão como se posiciona a maioria do eleitorado. Quem vota não é a maioria do partido, não são os filiados do PT que votam para senador ; e sim o povo de Pernambuco.
Eu acho natural que haja essa disputa, agora tem que se observar as condições reais da disputa, as condições eleitorais , as condições em relação ao nossos aliados. Eu posso lhe assegurar que o posicionamento da maioria da bancada federal é favorável ao nome de João Paulo, inclusive fiz consulta pessoal . Todos reconhecem que temos que fortalecer nossa presença dentro do senado, o governo Lula hoje tem no senado o seu grande algoz é o senado que dificulta nossos projetos, é onde se paralisa muitos planos de governo porque temos minoria lá. Por isso não podemos brincar com esses cargos! Fortalecer o senado é decisivo para o governo da Dilma Rousseff, que não é Lula. Veja a força política de Lula… Em muitos casos ele consegue peitar o senado, consegue um diálogo. Mas Dilma não tem o mesmo carisma que Lula; ela é sim extremamente competente administrativamente, séria, honesta, dinâmica e além do mais traz a novidade de ser mulher representado maioria do eleitorado. Este é um lado simbólico cultural muito importante nessa disputa. Portanto ela precisa de um congresso forte para ajudar,então, temos que ter a responsabilidade de colocar quadros preparados para essa tarefa de ajudar a governar o Brasil. Não tenho dúvidas que João Paulo pela sua fidelidade ao presidente Lula e os projeto do PT,pela sua capacidade de articulação, de diálogo que João Paulo tem seria um excelente nome para essa disputa do senado.
2- Essa disputa interna no diretório estadual mostra uma fragilidade do partido?
F.F: Toda prévia traz tensões, porque vai haver um debate, vai haver acusações, divergências e acirramento da militância. Eu acredito que o preferível era não ter prévias, mas se for necessário que vamos às prévias. Agora é o último dos caminhos que deveríamos trilhar. Um bom acordo, uma boa conversa, uma distribuição de responsabilidade entre as pessoas. O papel de Humberto é muito importante para o PT , acho que ele pode desempenhar isso numa disputa proporcional. Ele está superando as dificuldades das acusações que recaíram sobre ele, o fato do Ministério Público ter retirado as acusações contra ele é importante e ele não estará envolvido nas questões que foram tão prejudiciais a ele na eleição passada. Agora eu não tenho dúvidas que nossos adversários com esse linguajar de baixo nível utilizarão ataques e criarão dificuldades com calúnia e coisas do tipo, então, devemos estar tranquilo para o debate buscando o melhor caminho. Devemos discutir com o governador, discutir com a nossa candidata à presidência e a partir disso decidir.
3.Quem mais pesa na hora do voto é a população. O senhor acredita que o papel da mídia tem esclarecido aos cidadãos o momento decisivo em que o diretório estadual do PT se encontra?
F.F: A mídia tem um importante papel nesse processo. Mas a mídia não está trabalhando sozinha. João Paulo e Humberto estão indo à mídia para colocar suas opiniões e fazendo um debate na mídia. Porém acho que isso deveria ser mais restrito e menos ostensivo, seria melhor para gente. Mas é a democracia. A mídia está cumprindo seu papel, se a notícia é oferecida…. Não posso criticar a mídia por isso, na verdade somos nós que estamos dando a contribuição para esse ambiente. Seria bom que nos recolhêssemos um pouco para que as pessoas não pensassem que a eleição está ganha. O governador Eduardo Campos e o presidente Lula com as experiências que têm sabem que não há eleição ganha. Inclusive nas pesquisas nacionais estamos um pouco abaixo. É lógico que estamos numa tendência de crescimento, mas tendência se inverte se você não tiver um bom controle da situação.
Acredito que devemos nos preocupar em administrar a vaidade e o otimismo exagerado, reconheço que é bom estar em ascensão, pois, motiva… Agora o otimismo exagerado do já ganhou é um perigo! Porque a decepção pode ser pior. Acho que devemos ter mais humildade e mais calma para trabalhar essas questões e para superar este momento. E digo mais: o PT pode ser o responsável por erros que podem ser chaves nessa disputa, se o nosso time jogar afinado é muito difícil perder essa eleição. Ninguém se iluda que estamos ganho. Isso é positivo, mas não são favas contadas. Temos muito que trabalhar, juntar tropas e ir para as ruas conversar com as pessoas, saber que eleição se ganha no dia com voto.
4. O senhor rebate muito esse clima do já ganhou. Contudo há um clima muito favorável no cenário nacional e estadual, o senhor encara essas disputas de forma muito complicada?
F.F. : Não diria que está complicada, mas não é uma situação simples. A candidatura de Marco Maciel não é uma candidatura de pato morto, nas pesquisas que vimos ele está em segundo lugar; é um político habilidoso que não ataca, tem o respeito nos setores conservadores – tem o voto de opinião conservador e agrega em outras áreas. É um político que não se pode menosprezar. Sugiro que tenhamos prudência nisso.
Sim, as condições para disputa são muito favoráveis, mas as condições não ganham a eleição; quem ganha é o voto, é o dia da eleição e o processo até chegar lá! Mas do que nunca temos bons momentos e boas oportunidades de ganhar, não podemos desperdiçar isso com inabilidade política, com incompetência política e com vaidades; que é o meu medo. Se tivermos capacidade de reconhecer um projeto nacional e que não podemos perder, teremos consciência que cada um de nós devíamos nos colocar a serviço de um projeto nacional de desenvolvimento do Nordeste e de Pernambuco – esse boom de crescimento que Pernambuco está vivendo – tem que continuar. Então se há um projeto político, esse deve estar em sintonia– nacional, estadual, municipal.
Poucas vezes na história da República Pernambuco teve um momento como este; vamos trabalhar nessa linha que acho que avançaremos muito nessas conquistas e assim consolidar uma vitória. Sou otimista, mas com a precaução de combater a arrogância de algumas pessoas, essa história de já ganhou de alguns apressados os faz esquecer que a história tem dado lições muito grandes aos arrogantes e apressados na disputa política.
( por Maria Carmen Chaves, especial para a Política Real, com edição de Genésio Junior)