ESPECIAL DE FIM DE SEMANA. <BR> <BR> Fernando Ferro fala de Governo, Democracia e de voltar ao comando do partido do Presidente Lula no último ano de mandato
Bancada do Nordeste
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( Recife-PE, 19/03/2010) O especial do Política Real desta semana entrevistou o deputado federal e líder da bancada do PT na Câmara dos Deputados Fernando Ferro. Ferro iniciou sua trajetória política nos anos 70 quando se engajou no Movimento Estudantil, de lá para cá não saiu mais da política. Ferro é um dos fundadores do PT e da CUT em Pernambuco nos anos 80; em 1994 é eleito deputado federal , estando hoje em seu quarto mandato consecutivo na Câmara. Em fevereiro o petista foi eleito expressivamente para assumir a liderança do partido na casa parlamentar – cargo que ocupa pela segunda vez no governo Lula.
Por seus posicionamentos fortes e contundentes quanto ao seu papel como parlamentar e líder, bem como, no que se refere às questões internas do PT estadual a entrevista foi dividida em duas etapas. A primeira voltada para o cenário nacional, o seu papel na Câmara, os embates com a oposição num ano eleitoral em que o PT tentará se manter no Executivo Federal com a ministra Dilma Rousseff, um balanço do governo Lula e da democracia brasileira pode ser conferida abaixo. A segunda, focada nas questões estaduais do partido, será veiculada na próxima semana.
P.R: No último mês o senhor assumiu a liderança do PT na Câmara Federal, quais suas metas para o cargo?
F.F – Primeiro lugar tenho consciência que um ano muito importante para a vida política do partido, do governo e do país, quando vamos realizar as eleições presidenciais. A bancada tem um papel de conduzir todo o processo legislativo, formulação de legislação, articulação política na Câmara e no Congresso. E tem também um papel político de participar da estruturação dos palanques regionais e toda uma preocupação em ampliar as bancada no Congresso Nacional para fortalecer o apoio ao governo no próximo ano; então eu tenho satisfação e orgulho em ser líder de uma bancada tão importante como é a do PT e consciência da responsabilidade deste cargo. Por isso é preciso ter a capacidade de reconhecer a luta política no plano eleitoral, o processo legislativo e a organização da bancada para cumprir bem o seu papel , até porque as ações da bancada é um das vitrines do partido e, evidentemente, a principal bancada de sustentação do governo do presidente Lula. A bancada está diretamente ligada aos sucessos, às propostas que foram encaminhadas e à defesa dessas propostas no Congresso Nacional, para que desta forma o legislativo proporcione estabilidade aos projetos do presidente Lula. Oferecer apoio para que as iniciativas encaminhadas ao congresso fossem aprovadas e continuar esses trabalho é uma tarefa que nós temos neste ano eleitoral, mesmo reconhecendo que temos um ano atípico, pois até o início do segundo semestre vamos conviver com a agenda legislativa e com o debate eleitoral.
P.R: Como este ano é decisivo não só pelo processo eleitoral em si, mas pela tentativa de manutenção do PT no poder executivo por meio da ministra Dilma Rousseff, como será o trabalho junto à oposição que certamente irá bater duro no governo petista?
F.F: Nós já estamos sentindo os sinais do embate político. Evidente que há setores da mídia que escolheram o ataque ao PT, existe semanalmente uma grande manchete acusando, denunciando e tentando desqualificar o PT. Essa mesma gente que não conseguiu destruir o presidente Lula, e às vezes até elogia o governo e que tentou destruir em 2005, até mesmo com uma tentativa de impeachment; toda essa oposição agora se junta contra o PT. As baterias estão acessas e disparando sem piedade. Eu acho que é um sintoma da disputa política e nós vamos reagir e temos a obrigação de sustentar esse fogo e suportar esse ataque, até porque isso é resultante de uma falta de projeto na oposição. A oposição tem uma dificuldade muito grande em atingir o governo do presidente Lula e o que tentam fazer agora desmoralizar, desconstruir e desqualificar o PT e ao mesmo tempo tentar atingir a pré-candidatura de Dilma. Esta é a tarefa do momento para eles, que estão completamente tomados por essa ideia. Eu só acho devemos ter a capacidade de resistir como fizemos em 2005. Só lamento que oposição não venha fazer um debate pautado sobre projetos. Gostaríamos de saber o que eles vão fazer com o bolsa-família , qual a política econômica e externa; o que vão fazer na área energética, da saúde, do meio ambiente ; enfim, justificar porque não deve ser mais um governo do PT e dos seus aliados. Se o debate fosse feito nessa linha seria muito mais importante para o povo brasileiro, eles veriam uma discussão sobre o futuro da nação e os caminhos que a gente tem que fazer daqui para frente no pós-lula. Então o que temos que fazer é lutar para manter as conquistas desse governo com a ministra Dilma Rousseff e aprofundar as políticas sociais, econômicas e políticas que tivemos nesse governo. Por isso acho que estamos num bom momento, a oposição tem dificuldade, não conseguiu emplacar um candidato até agora, não consegue arranjar um vice e é natural que tente fazer esse jogo diversionista e tente desviar o debate para denúncia. Eu acho que isso funciona para o jornalismo sensacionalista da violência, mas para política além da denúncia a gente tem que ter proposta. E nesse caso esses estão perdidos, eu compreendo como um ato de desespero.
P.R. O senhor acredita que entre os projetos do governo em andamento, o PAC será o mais criticado pela oposição neste ano eleitoral. Por exemplo, no último dia 02 foi publicada na Folha de São Paulo a matéria “Maquiagem camufla os atrasos nas obras do PAC”, na qual o atraso nas obras é o foco principal, ressalvando ainda que o balanço oficial apresentado pela ministra Dilma no mês passado sofreu algumas alterações e ilustrações tornado os dados irreais. Como o senhor responderia a essas colocações?
F.F: O Brasil nunca teve um volume de obras como está tendo no momento, se você andar na BR- 101 em Pernambuco a população sabe que está sendo feita uma obra, pode até atrasar por alguns motivos… Mas as pessoas esquecem que tem que ter licença ambiental, tem o Ministério Público, ou seja, tem outras questões a serem observadas. Nós não vivemos numa ditadura onde o presidente dava ordens para fazer uma obra e ela começava a acontecer. Nós temos as questão natural das democracias. Agora a transposição está andando, a duplicação da BR-101 está andando, as obras do Complexo de Suape estão acontecendo, o Programa Minha Casa , Minha Vida está acontecendo, o programa Luz para Todos está seguindo aqui em Pernambuco (praticamente concluído), as universidades foram implantadas no Brasil. Obras do PAC decisivas estão acontecendo e o povo está vendo isso. Não é à toa que o Lula tem 80% de aprovação. Então não é uma ficção como eles dizem, a ficção aí é o discurso deles. Eu até digo, muitos andam de avião, vão daqui (Pernambuco) para João Pessoa de avião; se fossem de carro veriam as obras que estão sendo realizadas , pode está até atrasada, mas está acontecendo. O fato é que nós estamos fazendo as coisas e eles estão criticando, e o povo que esse ataque é inócuo. Vá dizer para o sertanejo que o PAC não funciona se ele está vendo a obra da transposição; vá dizer para o estudante que está no Prouni que o governo não está fazendo nada, se tem 500 mil estudantes estudando no Prouni. E ainda serão inauguradas obras este ano, para desespero da oposição. Nós vamos inclusive convidá-los para as inaugurações para mostrar que o governo está fazendo. A crítica deles é ao atraso, mas é diferente de quando ao se fazia no passado e nós ficamos crescendo 1%, 2% 0,5% ao mês. Nesse governo de Lula só este ano é que não crescemos, mas aí no mundo muitos tiveram crescimento negativo e nós ficamos praticamente em 0 de crescimento, o que é um ganho frente a crise que vivemos. Então o discurso da oposição é o da inutilidade eleitoral e da impotência de enfrentar uma realidade que eles estão constatando. Nisso está à dificuldade de ter candidato ao governo em Pernambuco, de ter dificuldade em ter um candidato à presidência da República e de escolher o vice. A oposição está vivendo um mau momento e se brincar vai continuar assim por um bom tempo.
P.R. Mediante a crise da oposição, o senhor acha que há uma tendência de alguns partidos de oposição desaparecerem do quadro político?
F.F: Acho que alguns estão em sérias dificuldades. Acredito que teremos uma renovação política no Congresso e a oposição terá que se organizar. Porque não pode continuar essa falta de projeto, esses ataques e essa grosseria que virou a política que eles estão fazendo. Eles não enxergam que o governo brasileiro é elogiado em todo mundo, a imprensa mundial elogia Lula em todo mundo. O que está acontecendo aqui é que boa parte da imprensa desconhece isso? Para essa parte da imprensa é como se Lula não estivesse fazendo nada, pelo contrário fosse um desastre. E como se existissem dois Brasis para esse pessoal: um Brasil da desgraça e da miséria que eles veem e um Brasil real que 80% da população aprova. Essa população vai julgar esse tipo de discurso e a oposição terá que responder pelo que estão afirmando e dizendo, nessas inúmeras tentativas de desconstrução do governo Lula. Eu compreendo isso como um grande desespero, falta de rumo, falta de eixo, falta de projeto político. E isso terá consequências eleitorais… Quem não tem nada a dizer a tendência é desaparecer mesmo. Acho que eles terão dificuldades, algumas bancadas serão reduzidas. É só ver em Pernambuco o desespero pela falta de candidatos, apelando para Jarbas ser candidato; Jarbas temendo ser o candidato, acha que vai ser o candidato, mas está muito ansioso, deu uma entrevista desesperado cobrando a Serra a candidatura nacional; é uma agonia geral. Isso é reflexo da falta de rumo político, falta de projeto e dessa diminuição dos partidos. O DEM, por exemplo, já mudou de nome quatro ou cinco vezes, não tem uma identidade; a identidade dele é tentar se afastar do passado. Trocam de nome para fugir do seu passado e de sua história.
P.R. O diálogo será a única estratégia política da bancada petista na Câmara?
F.F: São duas coisas. Primeiro não deixaremos ataque sem respostas, se quiserem fazer o jogo do debate político , faremos. Se quiser fazer o jogo da pancadaria vai ter pancadaria também. Não vamos aguentar calúnia, difamação e tentativa de fazer política com esses expedientes. Também temos o nosso limite de suportar essas agressões, então vamos revidar. Mas queremos fazer o debate sobre projetos: o que queremos para o Brasil? O que é preciso fazer para o Nordeste? Quais os eixos de desenvolvimento que teremos que orientar para cá (Pernambuco) ? Quais os investimentos em infraestrutura, portos, rodovias, ferrovias, política educacional, investimento em segurança e na área de Ciência e Tecnologia? E isso que temos que responder. Um debate de rumos, de projetos e de propostas. Agora o que temos é a oposição desesperada e estabanada; eles gritando desesperado, dançando na chapa quente e sem ter o que dizer para o país. Criticam o bolsa-família que era o bolsa-esmola, de repente elogiam. Um hora dizem que o governo Lula é a cópia do governo FHC, ora se é a cópia porque eles não vem para cá. Outra hora dizem que somos a continuação deles, outra hora dizem que não somos nada e que não temos projeto. Quer dizer, eles não têm o eixo nem para o ataque. Há uma desorientação completa da aposição e eles têm que apelar para esse expediente da baixaria, da pancadaria e da desqualificação política. Só que isso não funciona, esse povo que passou anos como situação não sabe fazer oposição. O DEM viveu nas tetas do poder por anos, já foi ARENA , PFL agora DEM, daqui a um ano se chamará outra coisa; mas sempre viveu na situação. Como nós tivemos um aprendizado muito grande enquanto fomos oposição, nós num primeiro momento do governo tivemos dificuldade, mas já superamos, nos ajustamos e estamos governando bem. Então aprendemos a governar e eles não aprenderam a fazer oposição, esse é o sinal do desastre que eles podem ter nessa eleição.
P.R-Em 2005 o senhor também assumiu a liderança do partido no Congresso, é possível traçar um paralelo entre a gestão de 2005 e a atual?
F.F: Assumi a liderança do partido no auge da crise de 2005, porque algumas lideranças do partido foram atingidas por denúncias. Fui convocado interinamente para assumir a liderança para recompor um exercito estraçalhado, recompor a nossa unidade interna e partir para uma reação. E foi o que fizemos. A partir dessa reestruturação fiquei dois meses e pouco na liderança, conseguimos conter a ofensiva golpista que teve contra o governo Lula e contra o PT. A época, Bohaussen dizia: vamos acabar com essa raça por trinta anos; outros diziam: o governo Lula acabou. Tenho depoimentos dizendo que o governo havia acabado, que era moribundo, que era hora de pensar em outras coisas. Ouvimos do deputado Jungmann que o PT tinha se acabado, agora ele tá num partido moribundo que é o PPS, que é uma linha auxiliar do PSDB e se brincar desaparece do cenário também. E esse tipo de gente é que vivia fazendo profecias em relação ao nosso momento de dificuldade em 2005. Superamos aquela fase e hoje estamos em outra fase, o grau de responsabilidade que tenho na liderança é outro: é organizar votações importantes, como concluímos agora a votação do pré-sal e o marco regulatório da exploração do petróleo e do pré-sal que seguiu para o Senado; vamos concluir algumas Medidas Provisórias do salário mínimo e dos aposentados, algumas Emendas Constitucionais que nós vamos eleger até o meio de junho. A partir daí será campanha eleitoral prioritariamente e temos que trabalhar para ajudar na composição dos palanques regionais. A bancada é fundamental para ajudar a constituir alianças estaduais que estejam sintonizadas e reforce o projeto nacional, assim poderemos atravessar este ano com sucesso e dar continuidade ao projeto vitoriosos do governo do presidente Lula.
P.R- Que avaliação você faz parte da democracia brasileira?
F.F: O grande crescimento econômico no governo Lula – com geração de emprego, renda, melhoria na qualidade de vida, redução da miséria e da pobreza – tivemos um ganho na consolidação da democracia. Somos uma democracia muito nova, se pegarmos de 1926 até 2010 apenas quatro presidentes concluíram integralmente o seu mandato dentro das regras constitucionais – Gaspar Dutra, JK, FHC e Lula. Mas já cresceu muito. Um dos legados do governo Lula é o avanço nessa consolidação democrática, houve uma maior valorização do Ministério Público, o papel da Polícia Federal, a visão republicana da política que estamos gradativamente tendo.
Esses episódios de Brasília… Quando se imaginava que um governador iria preso por cometer delitos no exercício do seu cargo, então, estamos assistindo a tudo isso. Isso significa uma mudança do Brasil e eu sou otimista neste aspecto, agora temos muito chão ainda pela frente. E para concluir, Lula resistiu a tentativa de terceiro mandato – que ele com 80% de aprovação se colocasse o congresso aprovaria no outro dia , e ainda com o apoio da população. Mas Lula de forma inteligente e numa postura de estadista negou essa tentação da vaidade política; ao contrário de FHC que forçou a reeleição para ele; mais um grande exemplo de Lula que lutou para fortalecer as estruturas políticas eleitorais. Para concluir esses avanços democráticos precisamos fazer uma reforma política, com esse quadro partidário eleitoral que temos hoje há momentos de tensão e crise política no país. Por isso que acho que no começo do próximo governo temos que promover uma mudança radical nas estruturas políticas e eleitorais do Brasil criando a fidelidade partidária, voto de lista, valorização dos partidos e outros mecanismos necessários a uma reforma política como financiamento público de campanha, financiamento de campanha que possa mudar e reduzir esse impacto de poder econômico nas eleições . Nós ainda temos que andar bastante, mas sou otimista em relação a essa caminhada que o Brasil está tendo; os ganhos do governo Lula são amplos e consolidadores de cidadania, democracia e das atividade econômica.
( por Maria Carmen Chaves, especial para a Política Real, com edição de Genésio Araújo Junior)