31 de julho de 2025

ESPECIAL DE FIM DE SEMANA. Já circula no Brasil uma cartilha que compara governos de Lula e FHC. Autor, Zé Prata, um militante petista de carteirinha, fala à Política Real sobre a publicação que deverá virar um sucesso se Lula conseguir que campanha fique

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Por admin
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( Brasília-DF, 12/02/2010) A semana começou com briga entre PT e PSDB. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso publicou artigo no último domingo, 7, criticando a disposição de Lula em incentivar a comparação entre os dois governos e acusando o “lulismo” de mentir e descontextualizar.

Em resposta, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), pré-candidata do PT à presidência, disse que não tem problema em comparar. FHC chamou Dilma de “boneco”, “manipulada” pelo “ventríloquo” Lula. Disse ainda que a ministra “não é um líder, e sim reflexo de um líder”.



A cúpula petista comemorou a entrada de FHC no debate eleitoral, o que o vincula ao pré-candidato tucano e governador de São Paulo, José Serra. Ministros de estado acreditam que a comparação entre governos ajudará Dilma. A ministra disse que vai comparar obra por obra.



O debate chega ao Senado. Tasso Jereissati (PSDB-CE) afirmou que Dilma é “uma liderança de silicone”. O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), disse que sem Lula, Dilma só ganharia eleição para vereador. Eduardo Suplicy (PT-SP) exaltou as qualidades da ministra, e Serys Slhessarenko (PT-MT) afirmou que Dilma sempre esteve ao lado de Lula.



Na mesma direção, o economista e especialista em direitos sociais, José Prata Araújo, formado pela PUC-Minas, militante do PT, membro da Executiva mineira do partido, começou a divulgação de seu livro “O Brasil de Lula e o do FHC – um roteiro comparativo para a disputa político-eleitoral plebiscitária de 2010”, produção independente.



Ele tem distribuído sua cartilha para deputados federias e estaduais do PT, senadores e militantes do partido. Zé Prata já publicou três livros pela Fundação Perseu Abramo, do PT, entre eles “Um Retrato do Brasil: Balanço do governo Lula”, em 2006, sobre o primeiro mandato.



No novo livro, Zé Prata utiliza 85 tabelas para comparar os governos Lula e FHC. Os dados foram tirados principalmente do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). O autor diz que também consultou publicações do PSDB sobre seus programas de governo. A publicação deverá fazer muito sucesso quando a campanha chegar às ruas.



Confira a entrevista que ele concedeu à Política Real, falando sobre as principais comparações contidas no livro e porque defende uma disputa plebiscitária.



Política Real: Quais foram as principais comparações que você fez entre os dois governos?

Zé Prata: Eu reafirmo uma concepção de estado bastante distinta, como por exemplo, na questão da presença do estado na Economia. É uma verdade que o Lula não está propondo acelerar a presença do estado na economia, mas sim preservar o que sobrou de estatal no Brasil e fortalecer as estatais. No plano diretor da reforma do estado do FHC, de 1995, está expresso que todas as estatais seriam privatizadas. Isso não é um sectarismo do PT. Todas as estatais brasileiras foram privatizadas por R$ 103 bilhões. Só a Vale do Rio Doce hoje vale R$ 130 bilhões. Daí, dá para as pessoas imaginarem o que aconteceu com as privatizações.



Política Real: Fernando Henrique critica os petistas de compararem sem contextualizar.

Zé Prata: O FHC fala, ele tem uma certa razão, que você não pode comparar o governo dele com o governo Lula, porque são duas épocas diferentes na economia mundial. Qual a comparação de fato é mais correta? Quanto o Brasil cresceu durante o governo FHC sobre o quanto o mundo cresceu no mesmo período. E a mesma conta em relação ao governo Lula. No governo FHC, o Brasil cresceu 2,32% e o mundo cresceu 3,53% do PIB. Portanto o crescimento brasileiro foi 65,7%. da média mundial. No governo Lula, o crescimento até 2008 foi 4,2% e o crescimento mundial foi 4,38%. Portanto o crescimento do Brasil em relação ao mundo foi 95,9%. Essa comparação é escancarada.



Política Real: Mas a oposição afirma que o governo FHC lutava pela instalação do Plano Real e pela estabilidade econômica.

Zé Prata: De fato, a conquista do Fernando Henrique foi a redução da inflação de mais de 2.000% para 10%. Agora, os dados, de modo geral do governo Fernando Henrique foram muito ruins. Vejamos as reservas de dólar, necessárias para o Brasil suportar a pressões mundiais sem quebrar. Em 1994, o Brasil tinha 38 bilhões de dólares em reserva. Em 2002 tinha 37 bilhões de dólares, o mesmo valor. Isso, com o dinheiro do FMI, porque sem ele, o Brasil tinha 16 bilhões de dólares. O Brasil fechou 2008 com 206 bilhões. Em relação à inserção do Brasil na economia mundial, onde é que está aqui a estabilização? Na questão fiscal, o Fernando Henrique herdou o Brasil, em 1994, com uma dívida de 30% em proporção ao PIB e entregou, em 2002, com 51%. O Lula deixou 2008 com 38%. O Fernando Henrique tomou todas as possibilidade para diminuir a dívida. Ele aumentou receita, por meio do aumento da carga tributária de forma violenta. Ele cortou despesa com as reformas, por exemplo. E vendeu grande parte do nosso patrimônio público. E ainda passou de 30% para 51%.



Política Real: O que o livro fala sobre a política social?

Zé Prata: Na questão da previdência, eu mostrei porque o Estado brasileiro recuperou a previdência. A previdência precisa de dois a três novos empregos, contribuintes, para sustentar uma pessoa que aposenta. No governo Fernando Henrique, foram gerados, em oito anos, 797 mil empregos, e aposentaram 5 milhões e 882 mil trabalhadores. Ou seja, praticamente sete novos aposentados para cada emprego gerado. Não tem previdência que agüente uma coisa dessas. No governo Lula houve uma inversão. Foram 4 milhões 979 mil aposentados e 7 milhões e 720 mil novos empregos de carteira assinada. Então, o governo Lula o número de novos contribuintes com a previdência foi muito superior ao de pessoas que se aposentaram.



Política Real: Uma das grande críticas que se faz ao governo Lula é ao inchaço da máquina pública.

Zé Prata; É verdade que há uma expansão do governo Lula no número de servidores públicos. Mas é verdade também que os maiores setores que cresceram foi educação e segurança pública. Cresceu porque aumentou [o contingente da] Policia Federal, porque foram abertas esse tanto de escola técnicas [Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia – Ifets], porque não tinha concurso para as Universidades. É preciso qualificar esse debate.



Política Real: Outra crítica que se faz é sobre a pesada carga tributária

Zé Prata: A carga tributária subiu mais no governo Fernando Henrique, com aumento de alíquota e novos impostos. No governo Lula, a carga tributária subiu, acima de tudo, pelas melhorias da economia, como por exemplo, pela maior contratação de trabalhadores, que acelerou receita do INSS. No Imposto de Renda da pessoa jurídica, cresceu muito porque as empresas lucraram mais.



Política Real: Existe algum indicador que foi pior no governo Lula que no FHC?

Zé Prata: Ao longo dessas 85 tabelas, eu só achei um único indicador, que foi a remessa de lucros e ao exterior. A remessa de lucro acelerou durante o governo Lula. Foi de 5 bilhões em 2002 para uma patamar realmente preocupante de 33 bilhões em 2008. Quanto mais sai dólar do Brasil, mais desequilibrada ficam as contas externas. O Brasil remete dólar para exterior com a remessa de lucros, paga juros da dívida e ele importa. Basicamente, o que ele conta para segurar as contas externas são as exportações. Esse número de 2008 é excepcional por conta da crise econômica mundial, porque as multinacionais instaladas aqui remetem lucros para recomporem suas matrizes nos países de origem.



Política Real: Porque você defende, assim como o PT, que as eleições sejam plebiscitárias, sem a presença de outros candidatos da base do governo Lula, como o deputado Ciro Gomes (PSB-CE)?

Zé Prata: O governo tem toda a razão de querer incorporar o Ciro e o PSB nessa coligação. Há uma eleição publicitária por duas razões. As duas candidaturas nacionais com capacidade de polarizar o Brasil são o PT e o PSDB, que estão liderando as grandes coligações partidárias. Eu avalio que a situação não muda agora. Se houvesse uma rejeição ao governo do PSDB no passado e se o PT tivesse frustrado os sentimentos populares, haveria mais alternativa para uma terceira via. E não estamos vivendo nenhuma crise nacional e democrática que impõe uma terceira via. Em segundo lugar, no Brasil, há um certo antagonismo, há uma polarização bastante substantiva. As diferenças entre o governo Fernando Henrique e o governo Lula são bastante acentuadas.



( por Evam Sena, especial para a Política Real, com edição de Genésio Araújo Junior)