ESPECIAL DE FIM DE SEMANA. Deputados nordestinos vão ao Haiti e contam o que viram. Os deputados percorreram as ruas de Porto Príncipe que, em 12 de janeiro, foi devastado por um terremoto que deixou cerca de 200 mil mortos, 20 deles brasileiros….
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( Brasília-DF, 05/02/2010) Um grupo de cinco deputados da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara passarou a quarta-feira, 3, na capital do Haiti, Porto Príncipe, e chegaram ontem ao Brasil. Entre eles estavam Colbert Martins (PMDB-BA), Claudio Cajado (DEM-BA), Emiliano José (PT-BA), além de Janete Rocha Pietá (PT-SP) e Raul Jungmann (PPS-PE), que coordenou a missão.
Os deputados percorreram as ruas de Porto Príncipe que, em 12 de janeiro, foi devastado por um terremoto que deixou cerca de 200 mil mortos, 20 deles brasileiros.
A missão se reuniu com o presidente haitiano René Préval; o presidente do Congresso, Lucian Coeur e o comandante-geral das tropas da missão de paz da ONU, o brasileiro Floriano Peixoto. A missão visitou também sedes de ONGs de ajuda humanitária como a brasileira Viva Rio, que hoje atende 2 mil pessoas em barracas naquele país.
Na chegada ao Brasil, os deputados contaram o que viram e sugeriram a realização de uma grande audiência geral no plenário da Câmara para discutir a reconstrução do país caribenho, com a presença dos ministros Nelson Jobim (Defesa), Celso Amorim (Relações Exteriores).
Para os deputados que viram o cenário de destruição, a ajuda internacional não deve se focar somente em segurança, mas na reconstrução do país, na recriação do Estado e em seu desenvolvimento. “Esses países [da ajuda internacional] precisam montar um fundo único, respeitar os haitianos, colocá-los no centro de sua própria capacidade de sair e voltar a ser uma nação com existência digna”, defendeu Jungmann.
“Não adiantam novas intervenções militares, mas, sim, intervenções na infra-estrutura, para que o país volte a ser como o vizinho, a República Dominicana, no qual o nível e as condições de vida, apesar de se encontrarem na mesma ilha, são bem diversas, são bem melhores”, comparou Colbert, que ressaltou a prioridade “não a um Estado, não a uma terra”, mas ao povo haitiano.
Jungamann denunciou que o Haiti já teve oito intervenções da ONU, que não resolveram a instabilidade nos últimos 20 anos, e que o país caribenho está “viciado” na ajuda humanitária de outros países e ONG’s internacionais. “Não vamos resolver o problema do Haiti com segurança e com missão de estabilização, que entram lá, reduzem a temperatura, a febre, saem, e tudo continua como sempre”, opinou.
O coordenador do grupo fez uma previsão, se a forma de lidar com a situação não for mudada. “Aquilo vai se transformar de um não-estado, em um narcoestado. Hoje os cartéis das drogas tanto da Colômbia, quanto do México começam a se instalar lá, vendo a possibilidade de que o Haiti, do fundo da sua miséria e da sua desgraça, venha a se transformar num entreposto internacional de distribuição de drogas”, lamentou.
O coordenador do grupo defendeu um novo Plano Marshall, a ser realizado pelos Estados Unidos, para a reconstrução do país caribenho, em referência ao programa americano para reerguer os países europeus destruídos durante a Segunda Guerra Mundial. Na sua avaliação e de Floriano Peixoto, as obras de recuperação devem durar até 50 anos.
“Fora isso [sem plano de reconstrução], o Brasil corre o risco de se transformar numa espécie de guarda permanente e tende a passar décadas lá, sem fazer com que esse Haiti, que hoje vive à beira do abismo, consiga se tornar uma sociedade digna de ser vivida”, opinou Jungmann.
Acampamento de desabrigados – Colbert Martins descreveu a situação de Porto Príncipe: sem luz, água ou esgoto. “Quando há luz é porque alguém tem em casa um gerador próprio. As ruas são escuras. [Porto Príncipe] é uma cidade de 3 milhões de habitantes, mais ou menos do tamanho de Salvador, e não se consegue ver nada, é o maior breu do mundo”, disse.
“Não existe água suficiente para beber. Nas garrafinhas de água que são vendidas, vem escrito água purificada. Não existe água mineral no Haiti. Mas, na rua mesmo, o que vimos ontem foram caminhões transportando água. E a população faz filas para pegá-la, como nós vimos acontecer no Nordeste durante as nossas piores secas”, continuou Colbert.
O deputado baiano afirmou que a distribuição de alimentos é feita sem conflitos. “[A missão de paz da ONU] definiu que quem os recebe são as mulheres, o que é muito importante. Deixou de haver conflito entre homens e garotos que se empurram. Nós vimos filas organizadas”, classificou.
“As pessoas, por não terem esgotos, fazem suas necessidades nas ruas”, acrescentou o deputado. “É um Estado que não consegue registrar os nascimentos e não registra os mortos, onde não há propriedade civil garantida”, disse Colbert.
Raul Jungmann afirmou que as praças e ruas foram transformados em grandes acampamentos de desabrigados para os cerca de 1 milhão de refugiados, que vivem em barracas. Colbert alertou que o período de chuvas começa em maio, o que deve piorar a situação.
“O Haiti é um país com 9 milhões de habitantes. Perdeu cerca de 250 mil, 600 mil estão feridos, e foram feitas 300 mil amputações”, informou Jungmann.
Para o coordenador da missão, o mais chocante foram as pessoas a vagar pelas ruas, como “fantasmas”, “sem nenhum rumo, sem nenhum sentido, sem ter nenhum destino”, sem “nenhum olhar agressivo, gesto de violência ou de inconformidade”. “É como se houvesse uma aceitação da mais absoluta, total e completa treva. Eu me senti no Haiti como se estivesse no coração das trevas”, declarou.
( por Evam Sena, especial para a Política Real, com edição de Genésio Araújo Junior)