31 de julho de 2025

ESPECIAL DE FIM DE SEMANA. Suape: o disputado ouro pernambucano <BR> A entrevista é com uma deputada pernambucana que tem ma proposta polêmica&#8230;

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Por admin
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( Recife-PE, 27/11/2009) Em Brasília, se discute a divisão dos royalties e da participaçào especial do Pré-Sal. Em Pernambuco, a deputada Elina Carneiro(PSB) abriu uma discussão semelhante: a partilha da receita gerada pelo complexo industrial e portuário do Suape. Localizado em Ipojuca, o empreendimento é hoje comparado ao desenvolvimento de gigantes, como Cingapura e Coréia. Sobre este tema e outros, a Política Real entrevistou Elina Carneiro como destaque da Especial de Fim de Semana





PR- Um de seus projetos ganhou recentemente manchetes na imprensa – o que propõe a criação do Distrito Estadual de Suape, que vem sendo alvo de muita polêmica. Quais são as vantagens do projeto, quais os seus argumentos em defesa do projeto?



EC- Nos últimos 30 anos, os impostos dos cidadãos de Pernambuco foram, boa parte, destinados ao Complexo Industrial de Suape e parcela considerável da receita do Estado também. Ao longo desse período, todo o trabalho técnico do Governo do Estado também foi dirigido ao Complexo de Suape. Hoje, o Complexo traz lucro enorme ao Estado e eu não acho justo que isso fique concentrado só em Ipojuca. Nada contra a cidade de Ipojuca. Sou pernambucana e quero que Ipojuca cresça. É uma região que tem praias belíssimas e merece investimento que gere crescimento. Eu conversei com o prefeito Pedro Serafim sobre minha proposta para que não ficasse nada mal entendido, mas ele não entendeu os argumentos. Eu entendo que a divisão é necessária. Se hoje Ipojuca já tem grande receita por causa do complexo, em 10 anos será a maior renda per capta do Nordeste. Mas isso é resultado de esforços de todos os governadores que passaram por Pernambuco em três décadas – Marco Maciel, Jarbas Vasconcelos, Heraldo Gueiros e principalmente o atual governador Eduardo Campos, que foi quem tirou o projeto do papel, com apoio, é claro, do presidente Lula, que tocou esse projeto tão sonhado pelos pernambucanos. Como pernambucano, ele é um presidente que pensa especialmente na Região Nordeste. Então, é muita receita concentrada apenas em uma cidade de 60 mil habitantes, com ¼ do tamanho de Jaboatão dos Guararapes, uma cidade que para se chegar a ela tem que passar por Recife, Jaboatão, Cabo (ou por Sirinhaém, Escada, Ribeirão, pra quem vem do sul). Receitas muito grandes, às vezes, são mal administradas, não são concentradas nas áreas mais importantes – saúde e educação. Minha proposta é fazer justiça social com esse dinheiro, distribuindo ele por todos os municípios, com parcela maior para as cidades que estão no entorno do Complexo de Suape. O prefeito tem que entender que Ipojuca não é dele e ele está ali temporariamente. O Complexo de Suape também não é dele, nem de ninguém – é de todos os pernambucanos. É semelhante à luta para distribuir a receita do Pré-sal – o que é muito justo. Meu projeto, por sinal, é anterior à descoberta do Pré-sal. E eu digo ainda: esse dinheiro deveria ser concentrado apenas para saúde, educação e saneamento básico e esse uso deveria ser fiscalizado pelo Ministério Público, imprensa e população. No meu projeto, eu proponho a criação de um conselho multidisciplinar para monitorar essa partilha e que ele tenha membros da sociedade civil, para que não seja um dinheiro usado em verba de marketing e propaganda política, por exemplo. Eu vou lutar por isso. O projeto está na Comissão de Constituição e Justiça da Assembléia Legislativa e eu não vou deixar passar.



PR- Um dos debates que a sra vem trazendo à tona é quanto a ampliação da participação feminina nos espaços políticos. Como a sra vê este cenário hoje?



EC- Como presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Alepe, vejo com preocupação e tristeza. O espaço ainda é muito pequeno para o que a mulher já provou ser e já conquistou. É preciso começar a discussão entendendo por que mulher não vota em mulher? Será que os meios de comunicação investem muito na imagem de fragilidade da mulher? Será que as conquistas femininas não estão sendo passadas como deveriam pela imprensa? Ou culturalmente a mulher não foi integrada ainda a alguns espaços na sociedade aqui em Pernambuco? É preciso acabar com esse preconceito e defender esse direito de conquista da mulher. Já avançamos, apesar disso. Hoje temos quatro mulheres presidentes no mundo. Mas aqui no Brasil isso ainda é muito fraco.



PR – Sua atuação à frente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Alepe avançou de alguma forma na elaboração de políticas que retraiam a crescente violência de gênero no estado?



EC- Eu me tornei uma pessoa cansativa nos primeiros meses do mandato falando sobre a violência contra a mulher. Pernambuco ainda agride muito as mulheres – moralmente, fisicamente. Mas a formação dessa comissão foi muito importante. Ainda é preciso mais. É preciso que se entenda que a mulher não é frágil emocionalmente, nem intelectualmente. Apenas fisicamente. A lei Maria da Penha surgiu num momento muito importante. O que falta é investir em outras áreas. Eu acho que, quando a mulher tem a sua independência econômica, ela inibe o agressor, ela tem mais segurança de buscar punição para o agressor, ela fica mais esclarecida quanto aos seus direitos, ela não fica mais submetida a um homem para comer, sustentar os filhos e ter um teto. E nem também depende da existência de um parceiro para justificar à sociedade – no caso das mulheres de classes sociais mais altas. Seus direitos ficam óbvios, a impunidade diminui e esses índices caem. Pensando nisso, entrei com um projeto de lei que estabeleça um percentual de ocupação de 20% por mulheres nas vagas de trabalho nas empresas privadas do estado – em todas as áreas, da faxineira à diretora. É um caminho para se abrir espaços de oportunidades. Eu sei que isso pode ser questionado como discriminação contra homens. Mas é preciso dar esse primeiro passo para mudar a lógica machista. Com o passar do tempo, a lógica de igualdade estará tão disseminada, que a lei passará a ser desnecessária.



PR- Seu pai é um homem público bastante polêmico, que tem uma forma bem peculiar de exercer a política. A sua escolha por uma trajetória política teve ou não influência dele? Em que aspectos hoje você se vê parecida e diferente da forma dele de fazer política?



EC- Desde pequenininha acompanhava meu pai. Por admirá-lo e me encantar com aquela dinâmica, comecei a me envolver. Na faculdade, sempre me escolhiam para representar a turma, fazia parte de Diretório Acadêmico e também sempre ajudei ele, fazia uma coisa aqui, umas anotações e quando menos esperei, já estava envolvida. E isso é de família mesmo. Tenho uma tia que foi a primeira mulher vereadora eleita aqui no Recife. Foi vereadora por três mandatos e só saiu porque o marido impôs que ela tivesse mais tempo para os filhos e para a família. Ela lançou meu pai na política – irmão dela. Dois tios meus também já foram vereadores, meu irmão… enfim, é toda uma formação política que vem de berço. Há irmãos meus que optaram exatamente pelo caminho contrário: “não quero ser político porque isso deixou papai muito ausente, foram muitas ilusões e decepções pelas quais ele passou, não queiro isso pra mim”. Mas eu vejo pelo lado bom. Acho que política é uma missão e meu pai tem essa missão de fato de ajudar. Eu admiro e sigo os passos dele, mas, claro, procuro exercer a política de uma forma mais moderna, mais focada, pensando no desenvolvimento. Eu admito que no início, a trajetória do meu pai foi muito pautada no assistencialismo. Até porque, àquela época, a população sofria mesmo um total abandono do poder público e foi através do assistencialismo que ele ajudou muita gente, criando leis que obrigaram, por exemplo, o poder público a oferecer funerais gratuitos, deu muita cesta básica, muito enxoval, muito caixão, fez abrigos nas paradas de ônibus… isso é admirável. Papai não é um político técnico, é um político do povo, de atender as pessoas em seu gabinete, de estar com o povo. Eu tento caminhar por outro caminho, pelo planejamento, e idéias para o desenvolvimento. Mas também me vejo em muitas situações em que acho muito difícil negar ajuda quando se pode ajudar. Nessas situações, me vejo seguindo os passos dele. Mesmo que eu quisesse, eu não conseguiria sair totalmente dos moldes do meu pai. Mas quero caminhar de uma forma mais moderna, deixando políticas públicas relevantes para a sociedade.



PR- Se nome foi bastante manchetado nos últimos anos em pelo menos dois assuntos: sua causa contra a Fundação Yapoatan e a suposta irregular anistia de uma dívida da sra com os cofres de Jaboatão. Esses assuntos são resolvidos para você, ou ainda são temas pendentes?



EC- Isso ainda é pendente para mim. Eu estou processando todas as pessoas que envolveram meu nome nisso e me colocaram em evidência meu nome de forma equivocada e mentirosa para tentar atingir meu pai. Minha irmã, Solange, tem todo o dinheiro de receber esse dinheiro. Ela era funcionária da Fundação Yapoatan e sofreu um acidente. Chegou-se a dizer que eu joguei minha irmã contra uma porta de vidro para armar essa situação e conseguir uma indenização para minha irmã. Ora! Eu teria que ter comprado muita gente pra executar este plano: peritos do INSS que avaliaram Solange e deram aposentadoria a ela e que todos os anos renovam este benefícios, a equipe médica do plano de saúde Unimed, dr Mauri Cortez, que emitiu laudos, o Poder Judiciário que decidiu que ela tem direito a ser indenizada, a Justiça do Trabalho, que reconheceu a indenização… enfim, é todo um complexo de responsáveis por isso. E tem mais! Apenas dez anos após o acidente, a Justiça determinou que a Prefeitura pagasse a indenização, somando o reparo dos danos em R$ 1 milhão. Quando saiu a sentença, coincidentemente, o pai de Solange – meu pai – estava à frente da Prefeitura. Mas como, há dez anos, poderíamos prever que ele ganharia as eleições e estaria à frente da prefeitura para pagar a indenização? Diante disso, a promotora Dalva Cabral usou o caso para se promover. Eu desprezo essa atitude e estou processando. Mas nós imaginávamos que isso iria acontecer. Quando saiu a sentença, nós deixamos tramitar para tentar esperar até que meu pai saísse do governo para que Solange desse continuidade ao processo. Mas cada vez que a prefeitura recorria, Solange ganhava de novo. Por fim, decidimos negociar para diminuir o valor da indenização para diminuir o impacto desse fato diante da opinião pública. O juiz, inclusive, considerou absurdo isso. Ela é uma cidadã e tem seus direitos garantidos pela lei como qualquer outro! Como pode ser penalizada por ser filha do prefeito? Foi uma sucessão de constrangimentos. Minha irmã e minha família têm seqüelas emocionais. Sem contar os danos causados à nossa imagem para a opinião pública. Estamos todos processando os envolvidos nessa situação.



PR- Para o próximo ano, 2010, quais são hoje seus planos?



EC- Eu durmo e acordo pensando nisso. Eu penso muito em estar onde eu possa aprimorar mais os projetos que já venho trazendo para a sociedade. Por exemplo, a instauração da Fliporto como uma atividade fixa no calendário cultural do estado. minha preocupação é de que, quando o governador Eduardo Campos for embora, que Pernambuco ganhe esse evento de forma fixa – um evento já consolidado de exaltação de nossa cultura através da literatura. Então, além deste projeto, tem a minha eterna preocupação quanto às políticas públicas voltadas para as mulheres; eu ainda quero fazer muita coisa nessa área. Quero ser útil, quero deixar um legado. Não quero estar à sombra do nome do meu pai, quero traçar minha trajetória, pra fazer o melhor para o meu estado, para o meu país e para mim mesma. Eu não quero só ganhar eleição. Quero fazer minha parte. Então, falta decidir como executar esse projeto nas próximas eleições.



( por Fabiani Assunção, especial para a Política Real, com edição de Genésio Junior)