31 de julho de 2025

ESPECIAL DE FIM DE SEMANA: . João Tenório (PSDB-AL) diz que política do biocombustível não decolou por inexperiência do Governo. Um dos maiores incentivadores do projeto de desenvolvimento regional via produção de energia reconhece que faltam incentivos e

.

Por admin
Publicado em

(Brasília-DF, 22/05/2009) Um dos ícones da discussão sobre o desenvolvimento regional via produção de energia, o senador João Tenório (PSDB-AL), afirmou que faltam políticas para desenvolvimento regional. E que enquanto o país não perceber que o Brasil é dividido e precisa se integrar, ele não irá para frente. A principal política defendida por ele para alavancar o desenvolvimento regional, no entanto, está paralisada.



A produção de biocombustível, bastante aclamada pelo Governo Federal, é para Tenório uma política que não decolou por falta de conhecimento. “ O objetivo foi saudável porque era criar naquela região alternativas e oportunidades de renda econômica. Mas ninguém conhecia, só havia a vontade de fazer das certo. Então, o grande problema do governo talvez tenha sido isso. Ele acreditou demais em uma coisa que não tinha experiência suficiente no país para fazer”, disse.



Ele frisou ainda que a indústria do biodiesel pressupõe proporções imensas de matérias primas, o que o país não consegue suprir. “Não havia experiência nem conhecimentos mínimos. O objetivo foi muito bom, a intenção melhor ainda, mas faltou realismo. Não sabemos como isso funciona, vamos devagar, experimentar mais”.



Tenório chegou ao Senado assumindo o posto do ex-senador e atual governador Teotônio Vilela e causou barulho. Com a comissão para analise do biodiesel, ele apareceu. E os suplentes chamaram mais atenção ainda na época da possível cassação do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), ex-presidente do Senado. Quanto ao direito de assumir o cargo sem ter tido nenhum voto, Tenório é claro: “A regra é esta que está aí. Se é a melhor, se não é, é uma coisa a se discutir. No momento que aconteceu era a única regra existente. Eu admito que talvez não seja a melhor, mas é a que existe.”

Confira íntegra da entrevista:



POLÍTICA REAL: A questão da energia é muito forte no Nordeste. A perspectiva da chegada das refinarias e de se gerar energia que pudesse gerar renda nos pequenos municípios do Nordeste chamou muito atenção. O senhor se sente um pouco frustrado pelo fato de a política de biocombustível ter se reduzido a manutenção de busca de mercados para o Etanol? Como você avalia?



Temos dois viés, o etanol e o biodiesel. O etanol já caminha com suas próprias pernas e tem um crescimento até desproporcional porque ele cresceu muito em função da possibilidade de abertura de novos mercados. Sobretudo Estados Unidos, União européia e Japão, por conta disso o Brasil produziu uma quantidade de cana astronômica baseado na expectativa de atender esses mercados. O que na verdade não aconteceu. Não houve a abertura desses mercados. Os Estados Unidos insistiram na produção de etanol a partir do milho, a UE estabeleceu um ritmo de mistura não muito satisfatório para as necessidades do Brasil. E o Japão parou. As pessoas que assumiram o comando tem uma visão bastante diferente daquela. Foi um retrocesso do processo de avanço que estava acontecendo com relação as aberturas de mercado de capital. Temos hoje um Brasil com uma superprodução de cana e os preços caíram muito. No começo do governo Lula o preço do etanol era de R$ 1,27 o litro, hoje está em R$ 0,58 por litro. Este é o viés do etanol.

No que diz respeito ao biodiesel. Na minha avaliação, ele ainda é uma coisa muito incipiente. Ele tem que ter o objetivo de desbravar novas culturas, sobretudo as com culturas com características sociais importantes, como agricultura familiar, o que não exatamente a produção de grãos. E o que acontece hoje é que quase toda cultura de grãos brasileira é baseada em soja porque ela caiu de mercado lá fora na recessão mundial e não tem mercado aqui dentro. Mas ao mesmo tempo, não desenvolvemos as outras alternativas possíveis. Precisaríamos de desenvolvimento tecnológico para a manona, peão manso e uma série de outras culturas que a gente não conhece e não sabe como lidar. A gente sabe muito bem como lidar com soja, mas não sabe como lidar com o dendê. É uma agricultura complicada, com colheita complicada porque não amadurece de uma maneira igual. Tem a mamona com colheita complicadíssima que não existe mecanização para isso. Não foi criada uma indústria de biodiesel no Brasil. Temos um aproveitamento oportuno de sobra de matéria prima, da soja. E tem também a produção de alimentos via soja, que com a sobra devido a recessão foi direcionada a alimentação.





POLÍTICA REAL: Quando surgiu uma estratégia do governo em torno do biodiesel, ele disse que acreditava que o biodiesel poderia funcionar como uma redenção para os pequenos municípios. Você acredita que essa política foi um grande fracasso?



Eu acho que foi um erro consequência do não conhecimento. Então, é o seguinte. Se a mamona desse certo, ela seria uma redenção do semi-árido nordestino espetacular. O objetivo foi saudável porque era criar naquela região alternativas e oportunidades de renda econômica. Mas ninguém conhecia, só havia a vontade de fazer das certo. Então, o grande problema do governo talvez tenha sido isso. Ele acreditou demais em uma coisa que não tinha experiência suficiente no país para fazer quando começou o programa nacional do álcool na década de 1970, sendo que a agricultura tem uma história de 400 anos. É diferente começar com uma coisa que você não conhece e nunca experimentou, ou apenas em um território pequeno. Mas a indústria do biodiesel pressupõe proporções imensas de matérias primas para ela. Mas não havia experiência nem conhecimentos mínimos. O objetivo foi muito bom, a intenção melhor ainda, mas faltou realismo. Não sabemos como isso funciona, vamos devagar, experimentar mais porque o santo é de barro, vamos ver o que acontece.



POLÍTICA REAL : Você é um dos suplentes que marcou a última legislatura. Alguns criticam ou concordam, como o senhor avalia?



Eu acho que precisa haver uma regra qualquer que seja ela. Se essa é a melhor ou não, é uma coisa que deve ser discutida pelo parlamento. Se chegar a conclusão de que essa não é a melhor, vamos colocar a melhor em funcionamento. Só que no momento, aquelas críticas que aconteceram quando eu cheguei, foi uma coincidência com a questão do Lenam e uma série de suplentes passaram a ter destaque nas comissões. Mas a regra é esta que está aí. Se é a melhor, se não é, é uma coisa a se discutir. No momento que aconteceu era a única regra existente. Eu admito que talvez não seja a melhor, mas é a que existe. Então, estamos apenas exercitando um procedimento democrático que nos diz que a regra é essa. Então, vamos continuar com ela até que nos chegue a melhor.



POLÍTICA REAL : O estado do Alagoas vem sofrendo nos últimos anos com a questão do desenvolvimento regional. Depois de se falar muito tempo do Piauí, que tinha o pior nível, temos o Alagoas disputando. Como você avalia esta questão?



Não vou falar de Alagoas, vou falar do Nordeste. Acho a questão regional mais importante até porque a diferença de qualidade de vida e econômicas nos estados nordestinos apesar de existirem são muito pequenas. Um é um pouquinho melhor,que o o outro, ou melhor dizendo, um é pouquinho menos pior que o outro. Eu acho que enquanto o Brasil não entender que não existe um Brasil, existem Brasis. e como tal deve ser tratado como Brasis cada um com suas características, suas necessidades, seus anseios, suas demandas, nós não vamos conseguir diminuir essas desigualdades brutais. O Brasil centralizar o desenvolvimento praticamente todo na região centro-sul. Você tem o Nordeste e o Norte carentes de oportunidades. E o que é pior é o maior dos preconceitos contra o reconhecimento nacional disto são políticos. Vou dar um exemplo, a Zona Franca de Manaus. Ela é uma das coisas mais criticadas pelo congresso Nacional. Ela não traz benefícios para nossa região, mas defendo ela veementemente. Ela é uma decentralização, você sai de um polo que está super saturado que é São Paulo. E isso custa ao Brasil, assim como custa a Alemanha Ocidental se integrar com a Alemanha Oriental custará ao Brasil. A união européia quando faz com que Portugal, Espanha e outros países se integrem gastam um monte de dinheiro. O que falta acontecer no Brasil é isso. A zona franca é um exemplo clássico do que deve ser feito e não do que não fazer. Digamos assim, é uma concessão fiscal importante que proporciona o aparecimento de uma coisa fora do eixo Rio-São Paulo. Eu acho que falta a consciência de que é preciso fazer isso, com políticas não mesquinhas, como as de hoje. Quando se discute a transferência de recursos de um estado para outro é uma mesquinharia o que se discute aqui com a reforma trinitária. De fato, é isso. Eu acho que falta no Nordeste a geração de ideias e opinião pública. As quatro grandes revistas do Brasil estão no Centro-Sul, as cinco televisões também, os seis maiores jornais do Brasil, igualmente. Não tem jornal que gere opiniões locais e façam com que isso circule pelo Brasil e fica muito difícil criar essas políticas porque política de desenvolvimento regional é trazer claramente dinheiro da onde tem para onde não tem. E onde é que tem dinheiro, tem em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais. É preciso que haja transparência maciça desses recursos para onde não tem, que é Norte e Nordeste. Para isso era preciso que houvesse criação de núcleo de geração de opinião pública.



POLÍTICA REAL: O senhor acredita que o PSDB está com dificuldades e ainda não encontrou um norte nessa questão de desenvolvimento regional?



Eu acho que não é só o PSDB, honestamente eu não identifico aqui no Senado e na Câmara uma percepção da importância desse tema. Nunca vi uma discussão mais profunda e não é por conta do meu partido. Mas todos os partidos brasileiros que tem uma conexão muito direta com as regiões desenvolvidas. E uma coisa que me deixa triste é um aculturamento dos políticos nordestinos coma realidade do país. Quantos presidentes nordestinos o país teve e quantos olharam para o Nordeste como deve olhar. Então, é isso, é uma cultura que existe no país, que precisa ser reformada e revista. E toda mudança cultural e lenta e exige gerações.



(por Grasielle Castro com edição de Genésio Araújo Junior- [email protected] )