ESPECIAL DE FIM DE SEMANA. João da Costa, prefeito eleito de Recife, fala sobre o que leveou a virória, PT, João Paulo e o futuro. Ele prepara nomes para anunciar equipe de governo até 15 de dezembro…
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( Recife-PE, 07/11/2008) O prefeito eleito no Recife para o próximo mandato, João da Costa Bezerra Filho – o João da Costa – é o entrevistado do especial deste final de semana do Política Real. Sucessor de um prefeito que é hoje considerado a maior liderança popular do cenário político pernambucano, João da Costa tem nas mãos o desafio de, nos próximos quatro anos, dar continuidade a uma gestão que projetou o Partido dos Trabalhadores no estado, que sagrou-se como um governo que prioriza a população que não mora na zona nobre da cidade, mas que, ao mesmo tempo, encampa obras faraônicas e polêmicas – como o milionário projeto do parque Dona Lindu, no endereço cartão-postal do Recife, que é a paria de Boa Viagem.
Esta mesma gestão mostrou-se blindada nas urnas, enfrentando denúncias de uso da máquina para fins eleitoreiros e a tentativa da oposição de ver cassada uma candidatura de sucessão. Como fazer isso? Fica a cargo a partir de 1º de janeiro deste pernambucano de Angelim (Região Agreste). Agrônomo e administrador por formação, João da Costa tem nas mãos ferramentas que certamente o ajudarão nesta tarefa. Foi secretário do orçamento participativo do Recife no mandato 2000 do atual prefeito, quatro anos depois assumiu a secretaria de planejamento da cidade e em 2006 foi eleito o deputado estadual mais votado na capital pernambucana. Tem 47 anos, é casado com Marília Bezerra e tem um filho, João Victor, de seis anos.
POLÍTICA REAL : O Orçamento Participativo (OP), apontado como a marca da gestão PT por onde o partido governa, foi a sua pasta no primeiro mandato do governo João Paulo. Isso lhe deu visibilidade, aproximou o Sr das lideranças populares do Recife, projetou sua imagem e seu trabalho. Desde o começo, estava nos planos do partido formar um sucessor a partir desta pasta? O OP nas suas mãos era uma ponte para a PCR 8 anos após a posse de João Paulo?
Não. O OP é um dos principais do modelo petista de governar cidades. A partir do sucesso de Porto alegre, desde 88, que teve 4 gestões consecutivas do PT. E a principal referência em do sucesso do PT em Porto Alegre era o OP, que nada mais é do que a participação da população na gestão pública. Quando nós a concorremos as eleições em 2000, o primeiro item do programa se referia não especificamente ao orçamento participativo – essa nomenclatura não era usada ainda – mas a uma gestão radicalmente democrática. E logo no início nós preconizamos que o OP seria o principal instrumento de exercício da gestão pública. E eu fui escolhido dentro dos assessores de João Paulo pra estruturar o programa de participação pública quando se ganhou a eleição. Então, o OP, depois do sucesso, como instrumento de democratização, de inclusão de uma parcela antes não ouvida da população, da inversão de prioridades dos investimentos em bairros que por muito tempo não recebiam investimento e público passaram a ter, por decisão da população e da garantia que o instrumento dava. E terminou se tornando uma referência. Mas ele nunca foi pensado como ponte. Pelo contrário. Em 2000 quando eu fui escolhido o compromisso era de que quem assumisse a pasta não poderia candidatar-se. E eu só fui ser candidato seis anos depois, em 2006, quando fui eleito deputado. Então fica provado que o OP nunca foi pensado como uma bandeira eleitoral que iria garantir a reeleição de quem assumisse o programa.
P.R: Se não foi o OP, qual, então, o Sr acredita que tenha sido o segredo de um resultado tão surpreendente de sua eleição em primeiro turno com 51,54% dos votos?
Ela é resultado de vários fatores somados. Há uma conjuntura geral favorável, de crescimento econômico, de estabilidade, de programas sociais, a nossa relação de afinidade e sintonia com o projeto nacional do presidente lula, a aliança que nós construímos, que unificou todo o campo político, que envolve o prefeito, o governador e as principais lideranças, o sucesso da gestão jp, que mudou a cidade, mudou as pessoas, que abriu o diálogo, mudou as prioridades, um projeto de governo que começou a cuidar das pessoas… o nosso desempenho ao longo da campanha, que ajudou a dar a síntese disso tudo num candidato. A população tinha que enxergar num candidato a síntese de todo o trabalho de 8 anos de duas gestões. E a gente conseguiu construir isso ao longo da campanha, dando principalmente a posição de dar continuidade ao projeto que vem dando certo nas cidades comandadas pelo partido. E associar esse sucesso às iniciativas do governo federal, bolsa-família, os investimentos do PAC, a estabilidade econômica… e a possibilidade de aliança com o governador e sinalizar que o recife tenha um projeto para o futuro associado ao crescimento de Pernambuco, a soma desses fatores, o acerto político, não ter errado durante a campanha, ter enfrentado as dificuldades da campanha, com serenidade, um bom guia eleitoral… então, soma-se tudo à militância, que foi às ruas defender a campanha. Acho que tudo isso nos possibilitou uma vitória em primeiro turno e a chance de dar continuidade a um projeto que vem dando certo.
P.R: Foi em Recife que o PT teve seu único sucessor eleito. Isso fortalece quem? O PT ou João da Costa?
É uma referência, apenas. Referência que fortalece o partido, fortalece João Paulo, fortalece João da Costa… todos os que estão associados a um projeto vitorioso. Isso também traz uma responsabilidade muito grande. Por ser uma terceira gestão do PT na cidade, por ser, dentre as 6 capitais em que o partido mantém uma liderança, a mais a importante que o partido administra, pela tradição e referência política. O sucesso ao mesmo tempo que fortalece traz um desafio muito grande de continuar sendo uma gestão exitosa, que produza resultados para a maioria da população.
P.R: E com essa responsabilidade redobrada, qual já pra o Sr o maior desafio da gestão?
É criar as condições de infra-estrutura urbana e de inclusão social pra que o Recife seja uma cidade referência na retomada do crescimento econômico de Pernambuco e do Nordeste. E isso só tem como acontecer se você tiver um projeto que ao mesmo tempo, cuida da cidade e cuida das pessoas. Não adianta você ter só investimentos em infra-estrutura urbana – no trânsito, na mobilidade, nos serviços de saúde, na educação – se você continua com uma cidade que tem o maior índice de desigualdade social do Brasil, tendo ainda uma parcela muito pobre, sem o menor acesso às condições mínimas de vida. Se não incorporarmos também parte dessa população no processo de crescimento da cidade, ela não se viabiliza como referência. Esse é o principal desafio que não se resolve em 4 anos. Então, o principal desafio é estruturar um projeto que, depois de oito anos, precisará dar um passo adiante na direção da construção dessa cidade mais igual. Desafiado agora mais ainda a descobrir como fazer isso nesse atual cenário de crise e de restrição.
P.R: A crise financeira mundial está na pauta das suas preocupações e discussões de plano de governo?
Sim, sim. Nós vamos acompanhar com muito cuidado os desdobramentos que podem haver na economia brasileira e as repercussões disso no cenário local, na receita do município. Uma crise que afete a geração de emprego e renda no país traz repercussões muito grandes numa cidade com as dimensões e características do Recife. Até agora, nós vínhamos num projeto de aumento da renda, de geração de postos de trabalho, investimentos em programas sociais garantidos pelo Governo Federal, mas, se a economia tem uma retração, isso afeta o ritmo em que vínhamos pra reduzir essas desigualdades. Isso vai estar sim na nossa pauta de monitoramento e as medidas que forem necessárias, para que o Recife sofra o menos possível diante de uma restrição econômica depois da crise.
P.R: Na época da campanha, o Sr acreditou em algum momento pudesse ser cassado?
Não. Não, porque em nenhum momento eu temi pelas ações que nós fizemos durante a campanha. Nos processos em que eu fui indiciado, eu não tive qualquer participação direta. Em nenhum deles. Fora atitudes de terceiros e o s opositores procuraram vincular ao uso de poder econômico e abuso de poder político. Nunca houve, nem uma coisa, nem outra. Nós enfrentamos uma eleição muito dura e nós ganhamos porque tínhamos um projeto para a cidade. Essa não é a primeira eleição que a gente disputa estando à frente de um governo. Nós passamos pela eleição de presidente e de governador em 2002. A reeleição de João Paulo em 2004, eleição pra governador novamente em 2006 e depois em 2008. Em nenhuma dessas quatro ficou caracterizado o uso do poder político ou econômico para fins de campanha. Sempre acreditei que houve um erro de interpretação do juiz Nilson Nery e que foi dada uma dimensão distorcida, superdimensionada do fato. Uns e-mails que uma servidora mandou para servidores não configuram um crime de abuso de poder econômico que influenciasse o resultado da eleição. Prova disso é que a população também avaliou os fatos e julgou. O resultado foi que me escolheram para novo prefeito do Recife. Estou muito tranqüilo porque a população já me julgou.
P.R: A coligação Frente do Recife foi uma das maiores da história política do Recife. Como o senhor vai conciliar os interesses dos correligionários nesse momento de formação da equipe para a sua gestão?
Está tudo caminhando dentro do previsto. Cerca de 80% da equipe já está no governo. Nós vamos procurara compor politicamente a equipe com todos os partidos que participaram do processo eleitoral, que se aliançaram com nosso projeto. É claro que vai haver critérios e o princípio será o óbvio: competência e resultados. A administração da cidade exige gestores que se integrem ao projeto de mudar a face da cidade, torná-la moderna e progressiva e isso tudo vai ser considerado. Mas o processo está acontecendo, a conversa com os partidos tem sido tranqüila e eu espero até o dia 15 de dezembro ter toda a equipe anunciada. Quanto a João Paulo, é claro que ele vai participar sim e sempre. Ele é hoje considerado uma das maiores lideranças políticas em Pernambuco, é um sucesso como gestor e, ao longo do mandato será sempre consultado, será sempre conselheiro e consultor, assim como eu sempre fui ao longo de 20 anos de trabalho juntos e de uma amizade que se fortalece sempre mais.
P.R: Em 1º de janeiro de 2009, após a posse, qual vai ser o primeiro compromisso do prefeito do Recife?
Já nos primeiros momentos da gestão, a meta é dar prioridade à saúde e à problemática das emergências na cidade do Recife. Vou procurar o governador para com ele desenvolver um programa juntos, para enfrentar esse problema de forma única, problema que, aliás, é muito grave. Como não é um problema só da cidade, é um problema do estado e até de outros estados, vai ter que ser assim e será prioridade primeira. Hoje Pernambuco recebe em sua rede pública de saúde – que já precisa de ajustes e ampliação para atender à população do estado – pacientes que vêm de cidades de estados vizinhos. Essas pessoas disputam nos nossos hospitais e policlínicas o mesmo espaço de atendimento que o cidadão recifense que adoece. A idéia é construir de forma urgente um cinturão de pequenas emergências para pelo menos diminuir o sofrimento que se enfrenta nas grandes unidades.
( por Fabiani Assunção, especial para a Política Real, com edição de Genésio Junior)