ESPECIAL DE FIM SEMANA. Prefeito do Recife, João Paulo, fala sobre seus planos para 2010. Ele comenta a vitória arrasadora de seu candidato à sucessão, mesmo enfrentando ainda batalha judicial travada pela oposição, que tenta manter cassação da candidatur
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( Recife-PE, 24/10/2008) Prefeito do Recife por dois mandatos consecutivos, João Paulo Lima e Silva tem 55 anos e leva consigo agora o título de primeiro prefeito reeleito da história do Recife. Nasceu em Olinda, filho de cobrador de ônibus e uma dona de casa. É casado, tem três filhos e uma neta. Tem formação técnica em Edificações e Mecânica e, desde quando assumiu a prefeitura, não consegue conciliar a administração municipal com as responsabilidades acadêmicas, deixando em suspenso sua formação superior em Economia, interrompida numa faculdade particular do Recife. Começou sua trajetória política em lideranças de bairro, nos movimentos de juventude e da classe operária e hoje, consegue eleger seu candidato à sucessão, com 432.707 votos, o que representa 51,54 % da votação total no Recife. Os números traduzem o sucesso de uma gestão que assumiu o slogan – a grande obra é cuidar das pessoas. No especial de fim de semana, o Política Real tenta traçar qual será o futuro político do homem que se tornou uma das maiores lideranças municipais da região que resultou num verdadeiro fenômeno de urnas e de aprovação popular.
POLÍTICA REAL : Nesse momento, de organização da casa para sair, antes de deixar a cidade para seu sucessor, como o Sr avalia o Recife que hoje o senhor entrega ao novo prefeito, comparado à Recife que o Sr recebeu em 2001?
A maior avaliação foi dada pelo povo, que me elegeu em 2000 e me reelegeu em seguida, fazendo de mim o primeiro prefeito reeleito do Recife. E agora, num voto de confiança, o Recife elege o meu sucessor. A sensação que fica é que nós cumprimos o compromisso firmado com o eleitor, que foi o de administrar a cidade dando prioridade à população carente, investindo em políticas públicas abrangentes para todas as áreas – educação, saúde, cultura, desenvolvimento econômico, saneamento, manutenção – realizando ainda obras estruturadoras para a cidade. Mas, principalmente, meu trabalho focou-se na construção do poder popular, que foi a implantação do Orçamento Participativo, que encerra a gestão com o marco de mais de R$ 300 milhões aplicados em obras decidias pela população, através das várias conferências temáticas que fizemos por todos os bairros e regiões político-administrativas da cidade, definindo a prioridade de investimentos com as lideranças sociais de mulheres, de etnias, de religiões, enfim… garantimos esse instrumento de democracia e fizemos, por exemplo, do Recife a cidade que, proporcionalmente, mais investiu na cultura no país. Só posso ficar feliz com os resultados, com o saldo da gestão e com o saldo, principalmente, da administração popular.
P.R: A respeito do investimento em cultura, um aspecto que chama atenção foi o Carnaval do Recife, que, ao longo destes oito anos de gestão, sofreu mudanças violentas e, ao mesmo tempo, muito positivas. A cidade hoje tem um Carnaval com identidade, uma festa descentralizada, organizada, capaz de atrair turistas do mundo inteiro, gerando renda, entrando para o calendário turístico do país como um evento de grande porte. Esse pode se tornar um marco da sua gestão?
O carnaval para nós foi um grande instrumento de democratização da cultura, na medida em que garantimos o acesso da população indiscriminadamente e gratuitamente. O carnaval teve qualidade, organização, investimento e atrações de peso nos mais diversos bairros da cidade. Acima de tudo, trabalhamos pelo reforço do nascedouro da nossa cultura, investindo nas pequenas e novas agremiações populares, aplicando verba no incentivo à atividade cultural. O carnaval foi só uma conseqüência de todo o nosso esforço e investimentos para tornar o Recife um marco turístico-cultural do país. A festa ficou com um brilho cultural recifense bem característico e certamente garantiu a perpetuação da multiculturalidade, que é a nossa marca.
P.R: Como o Sr acredita que os investimentos já aplicados e os já anunciados para os complexos portuário e industrial em Suape refletirão na economia da capital pernambucana?
Na verdade, a face econômica do Nordeste – em particular, de Pernambuco – já está mudando. Os grandes investimentos do Governo federal têm transformado as cidades da região, como o Recife. Já são até agora mais de R$ 1 milhão de verba federal investida em saneamento, habitação popular, além da aplicação dos nossos próprios recursos. E esses investimentos em Suape – a exemplo da refinaria de petróleo, do estaleiro Atlântico-Sul, da fábrica de hemoderivados… isso tudo traz para o estado não só essas indústrias, mas uma grande quantidade de empresas prestadoras de serviços, o que aumenta a circulação de riqueza no estado e conseqüentemente na cidade do Recife, o pólo com maior estrutura no estado. Isso essencialmente aquece a economia e nos dá projeções melhores.
P.R: Neste momento de transição, o que fica de lição para o prefeito que chega? Quais são as pendências e, na sua opinião, as políticas que merecem atenção para a continuidade?
Primeiro, fica claro pra mim que vai ser mantida a linha política na próxima gestão. Temos muitos projetos já aprovados e em andamento, com recursos e obras em execução. Outros projetos têm ainda algumas pendências no Tribunal de Contas, o que faz parte da dinâmica política. Mas acredito que o legado em obras, que é bastante estruturador para a cidade, é que deve ser continuado. São obras que garantiram melhor acessibilidade e deslocamento da população, como o alargamento da Av Herculano Bandeira (Zona Sul do Recife), finalização da paralela da Av Caxangá (Zona Oeste) e o corredor leste-oeste (área central do Recife). Há outras obras em curso, como a revitalização do calçadão da praia de Boa Viagem, por exemplo – que é cartão postal da cidade. Deixamos em constante implantação ainda os serviços de recuperação dos morros e a retirada da população das áreas de palafitas, o que previne as tragédias com chuvas e deixamos em curso a construção do Parque Dona Lindu (espaço cultural na orça de Boa Viagem), que vai democratizar ainda mais o acesso à cultura e lazer. Acho que nós deixamos uma grande quantidade de obras concluídas e outras em andamento que serão tarefas para o prefeito João da Costa dar continuidade.
P.R: Por falar no prefeito João da Costa, qual deverá ser a sua participação no modelo de gestão de seu sucessor?
Acredito que meu papel está muito claro. O povo me elegeu em 2000 para o mandato de 2001 até 2004. O povo me deu um segundo mandato, de 2005 até agora, 2008, e deu ao meu sucessor, defendido por mim, um mandato de 2009 a 2012. Então, caberá a ele, a partir de 1º de janeiro de 2009 fazer a condução do processo. Isso não quer dizer que ele não vá me ouvir, atender a algumas considerações, etc… mas o comando vai caber a ele.
P.R: Esta semana, a Justiça deu primeira vitória judicial a João da Costa no processo que cassou a candidatura dele por acusação de uso da máquina no seu governo como favorecimento na campanha. O TRE absolveu o prefeito eleito da medida de cassação da candidatura – já que, nas urnas, a população referendou essa candidatura – mas arbitrou uma multa para ele e para o senhor pela impressão de revistas que publicam investimentos do Orçamento Participativo para fins eleitoreiros. O processo ainda está em curso, ainda será julgado, mas como o Sr avalia essa primeira sentença?
Nós ainda não estamos totalmente contemplados, porque foi imposto pra nós a multa, no valor de R$ 70 mil cada um, o que, na minha avaliação – eu respeito a decisão do procurador – foi injusta. O que nós fizemos foi uma prestação de contas através de uma cartilha do Orçamento Participativo em maio passado. Enquanto que, no governo Roberto Magalhães, meu antecessor, em seu último ano de mandato, ele publicou um encarte num dos jornais de grande circulação em todo o estado de Pernambuco, fazendo sua prestação de contas e não teve Tribunal de Contas, Ministério Público, Justiça Eleitoral… nada que questionasse isso. Então, nós não podemos admitir que questões assim sejam tratadas com dois pesos e duas medidas. Mas, essa primeira decisão já alivia o peso que a primeira liminar causou em nós, em toda a equipe. Acredito que nós vamos ser absolvidos no processo final. Estou bastante tranqüilo em relação a isso. Isso, na verdade, pra mim, não passou de uma estratégia da oposição pra tentar inviabilizar a nossa vitória em primeiro turno – o que não aconteceu.
P.R: E quais são os planos para 2010? João Paulo Governador de Pernambuco?
Eu faço parte de um projeto do presidente Lula, um projeto nacional do partido. A princípio, vou conversar com ele, saber se ele tem alguma missão pra mim. Além disso, o que me cabe é analisar o que a conjuntura política vai dizer pra daqui a dois anos, quando teremos as próximas eleições. Acredito que João Paulo Governador, em 2010, não. Nós estamos num projeto de reeleição do governador Eduardo Campos (PSB), com quem estamos coligados, participamos do governo dele, estamos num projeto nacional único junto com o presidente, então, na minha ótica, o PT não tem que lançar uma candidatura pra governador em 2010. Isso, pra mim, está claro.
( por Fabiani Assunção)