ESPECIAL DE FIM DE SEMANA. PDT: uma analise sobre o partido de Brizola neste momento de crise. O repórter Francisco Paula Lima Junior é um profundo conhecedor do partido trabalhista
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(Brasília-DF, 18/11/2011) Com exclusividade e a pedido do editor da agência Política Real, o jornalista Genésio Araújo Junior, reuni impressões nos bastidores da política nacional, informações de anos sobre a história do PDT, o partido trabalhista fundado por Leonel Brizola depois que, segundo ele dizia, “a ditadura lhe tirou a sigla PTB” de Getúlio Vargas, do qual ele se considerava herdeiro político, e deu-lhe a Ivete Vargas.
Nossa proposta, aqui, é fazer uma análise que permita entender o que se passa no PDT de hoje. Entre outras, as razões pelas quais um partido de “berço verdadeiramente político” chegou onde se encontra. Suas entranhas e possíveis explicações que tornem compreensível o que acompanhamos na imprensa nacional. Como é possível um partido com o DNA do PDT, ter um presidente “fanfarrão” como Carlos Lupi, por exemplo.
Nossos partidos são, sem exceção, formados por pessoas qualificadas, mas também, por outras sem nenhuma ou com pouca qualificação sequer para compor seus quadros partidários, imagine-se, então, para ocupar cargos públicos. A ciência política explica tal realidade como um processo natural de amadurecimento da democracia e de nossas instituições. Sendo assim, vamos lá.
Ainda no exílio, no ano de 1979, Leonel Brizola reuniu um grande grupo de brasileiros, entre os quais o médico maranhense Jackson Lago, em Portugal, para discutir “propostas que libertassem o povo brasileiro da ditadura que findara”. Deste encontro saiu o documento conhecido como a Carta de Lisboa. Com propostas e compromissos entre os quais, a declaração de ser “urgente a tarefa de libertação do nosso povo”. Quase ao fim do documento é anunciado para o dia 19 de abril de 1980 – o ano seguinte – um grande encontro no Rio de Janeiro para o lançamento da sonhada sigla do PTB, como partido para viabilizar o que propunha a Carta de Lisboa. Foi quando, segundo o próprio Brizola, a ditadura tirou-lhe, por meio do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) a sigla e deu a Ivete Vargas.
Recuperado, Brizola lança, então, o PDT (Partido Democrático Trabalhista). A sigla abrigou todos aqueles “companheiros” de Lisboa, além de outros que aqui se juntaram como a nossa atual presidenta Dilma Roussef, que somente no ano de 2000 trocaria a sigla pelo PT. Além do deputado federal Miro Teixeira, oriundo do chaguismo, entre outros, mais ou menos ilustres.
Ao longo desses mais de trinta anos, o PDT foi acolhendo em seus quadros nomes que iam “surgindo como do nada”, como me disse certa vez um pedetista “histórico” que vou preservar. Uns com histórico de lutas, outros com outros históricos. Vale lembrar o jornaleiro Carlos Lupi, que “caiu na graça do “engenheiro”; o líder da segunda maior força sindical nacional, Paulinho da Força; o presidente do sindicato dos servidores do legislativo federal, Ezequiel Nascimento e o “arregimentador” de jovens no Maranhão, Weverton Rocha, entre muitos que entraram para o partido e que aceitavam as orientações do engenheiro Brizola.
Centralizador, o que lhe rendeu o apelido de “caudilho”, que segundo dizem os mais íntimos ele se orgulhava, Brizola conduziu o PDT como os irmãos Castro em Cuba conduzem por décadas os destinos daquela ilha e do único partido de lá: com mão de ferro. Eu mesmo vi alguns episódios nos tradicionais encontros nacionais em que Brizola mandava “cortar o microfone” de algum jovem militante “mais exaltado” e que não se alinhava completamente com seu pensamento. Era sempre aplaudido por uma delirante platéia que não via naquilo sinais de controle, de ditadura, mas sim, “o braço forte do nosso engenheiro(como era respeitosamente chamado o Brizola)”, no que acreditavam ser a “construção de um “novo e livre Brasil”, segundo depoimentos empolgados que ouvi e que ainda hoje me recordo.
Vale um registro pessoal. Estive muitas vezes com o Leonel Brizola. Ouvi, assim como todos que dele se aproximavam, atentamente tudo o que ele dizia. Era um homem que exercia fascínio sobre seu interlocutor. Dominava o ambiente. Tinha os seus encantos, como se diz por aí. Era, verdadeiramente, um líder em sua “corte”. Era sempre muito bom ouvi-lo. Sempre valeu à pena estar com ele.
Mas como dizem os antigos, “nada é para sempre…”. No dia 21 de junho de 2004, morre Leonel Brizola. Aos 82 anos, mas com uma lucidez impressionante.
Aí ficou exposta mais uma deficiência dos lideres ditos de esquerda em todo o mundo. A falta de preparação de nomes para sucedê-los. Assim foi, por exemplo, em Cuba quando Fidel não teve mais condições de comandar o país, foi sucedido pelo já ancião e irmão Raul que, por sua vez, nem pensa em indicar um sucessor, independente de que via se dê esse processo. Se repararmos atentamente no Brasil, apenas o atual governador de Pernambuco, Eduardo Campos, “se fez” herdeiro do líder e seu avô, Miguel Arraes. Ainda assim, segundo dizem alguns, sem a menor simpatia do mesmo em vê-lo sucessor. Assim foi também com o PDT de Leonel Brizola.
A considerar um nome de peso e liderança eleitoral (votos), entre os poucos da legenda, deveria assumir a presidência do PDT, um dos vices presidente, o médico Jackson Lago.
Signatário da Carta de Lisboa, homem que enfrentou o grupo de José Sarney por mais de 40 anos no Maranhão. Jackson manteve o PDT por quase 20 anos no comando da prefeitura da capital do estado, São Luis. Ora elegendo-se, ora fazendo sucessor. Foi eleito governador e cassado em um processo amplamente questionado por grandes nomes da magistratura brasileira. Jackson, a exemplo de Brizola, também não deixou sucessor.
Simples e que escondia na fisionomia fechada um homem generoso e amigo, Jackson tinha, à exceção de seu líder Brizola, o habito de delegar tarefas e poderes. Acreditava no ser humano. Às vezes até demais e nos que não deveria acreditar jamais. Talvez por conta disso não tivesse se interessado em deixar o seu Maranhão, distante do Rio de Janeiro (sede do PDT), (tanto física quanto em indicadores sociais) e preferiu continuar a sua “luta contra a oligarquia”, como ele definia a sua bandeira.
Como dizem que a ocasião é que faz a coisa acontecer, o jornaleiro que caíra nas graças do engenheiro, se fez presidente da sigla.
Daí em diante, é outra a historia do PDT.
Vamos nos ater, agora, às denuncias contra o presidente pedetista Carlos Lupi.
O líder sindical Ezequiel Nascimento, que veio do PSB para o PDT, ocupou o importante cargo de Diretor Geral do Programa Nacional de Inclusão de Jovens (ProJovem), do ministério do Trabalho, comandado por Lupi.
Segundo ouvi de alguns candidatos ainda nas eleições de 2010, no DF, Ezequiel teria “atropelado” a todos por ser o presidente regional do PDT-DF, na tentativa de eleger-se senador pelo DF (entre esses todos leia-se Reguffe, Cristovam Buarque e João Vicente Goulart). Não conseguiu eleger-se e como dizem os estudiosos, “a toda ação existe uma reação”. Então, quem foi “atropelado” resolveu pressionar o ministro Lupi para não reconduzir ao cargo(Projovem), Ezequiel Nascimento.
Ezequiel reagiu. Isso ficou claro na coluna do jornalista Cláudio Humberto de 14/11/2010, atente que poucos dias a mais de um ano atrás, sob o título “Ezequiel isenta produtora Fábrika”. É o seguinte o texto:
“Ezequiel isenta a produtora Fabrika (Notícia)
14/11/2010 | 12:24
O presidente do PDT-DF, Ezequiel Nascimento, isentou neste domingo a produtora de tevê Fabrika de qualquer irregularidade na transferência de recursos do PSDB para financiar a campanha presidencial de Cristovam Buarque (PDT), em 2006. Ele esclareceu também que a produtora trabalhou na campanha de Cristovam e não para Alckmin. Segundo o presidente do PDT-DF, a Fábrika apenas emitiu as notas fiscais. O então candidato tucano Geraldo Alckmin investiu na campanha do candidato do PDT a presidente para tentar tirar votos do presidente Lula, que disputava a reeleição. Ezequiel foi quem revelou o financiamento tucano da campanha do PDT. Em nota, hoje, Ezequiel Nascimento afirmou ter feito as revelações em um momento de divergências partidárias internas e sob a “carga emocional” devido a “um pequeno grupo que tenta, de forma antidemocrática, desqualificar os avanços e conquistas da atual gestão do partido no Distrito Federal”. Ele lembrou que o número de filiados cresceu 150% no DF o PDF dobrou o número de votos e elegeu pela primeira vez um deputado federal no DF”
Chamado a explicar o que a cúpula pedetista considerou inexplicável (lavação de roupa suja na rua, como me confidenciou que esteve na reunião), sobrou a Ezequiel voltar ao seu emprego na liderança do PDT na Câmara, como punição. “Tivesse vivo o Brizola, era expulsão cara, nem tinha o que discutir. Por muito menos ele expulsou gente maior”. Salientou o meu confidente pedetista sobre Ezequiel.
Como temos no Brasil, e ainda bem que é assim, uma imprensa vigilante, os focos viraram para suspeitas de irregularidades em convênios do Ministério do Trabalho. Novamente aí, suspeita-se de iniciativas de Ezequiel Nascimento. Não que não devessem ser denunciadas, apuradas e os culpados punidos pelos desvios naquela Pasta, não é isso que se discute aqui. Mas a confirmação do ex-assessor de Lupi à revista Veja de que o avião utilizado em viagens pelo Maranhão fora “providenciado” pelo dono de uma ONG com interesses na Pasta deixou claro “o interesse do Ezequiel nisso tudo”, como bem salientou meu amigo e histórico pedetista.
Outra peculiaridade do PDT
Diferentemente dos demais partidos atingidos pela faxina de Dilma, onde o ministro apesar de estar em um posto importante na esfera federal, não é o “cacique” em seu partido, no PDT Dilma terá que tratar da demissão do ministro Lupi, com ele mesmo. Afinal, ele comanda uma bancada hoje acuada e sem um nome que sirva de contraponto aos seus propósitos. Dilma terá que olhar nos olhos de Lupi e parafraseando João Dória Jr., em O Aprendiz, dizer “Lupi, voce está demitido!”.
Infelizmente, mais do que ter sido alcançado pela “faxina ética” de Dilma, o PDT de Leonel Brizola está sendo jogado na vala de legendas sem história e das quais não há histórias a contar.
Se, como disse no início do texto, a ciência política justifica isso tudo como um processo de aprimoramento da democracia e de nossas instituições, só o tempo nos dirá e a história há de registrar.
Links utilizados neste texto
A Carta de Lisboa
http://pdt12.locaweb.com.br/memoria.asp?id=17
Coluna do CH sobre denuncia de Ezequiel Nascimento
http://www.claudiohumberto.com.br/busca/?t=N&filtro=ezequiel%20nascimento#this
(Por Francisco Lima Jr., especial para Política Real, com edição de Genésio Jr.)
Francisco de Paula Lima Júnior escreve na Agencia Política Real. É jornalista e cientista político pela UnB.